Endividamento crônico de famílias deve aumentar

Não há alternativas para reverter quadro no curto prazo

spbancarios

Marcello Sigwalt

‘O que está ruim, pode piorar ainda mais’. O ditado soa como sentença implacável, quando se trata do aumento cavalar do endividamento das famílias brasileiras, hoje superior a 80% do segmento, com comprometimento de 29% da renda pelo pagamento de juros.

Tal cenário apocalíptico do poder aquisitivo tupiniquim tem como principal ‘carrasco’ o patamar indecente dos juros básicos (Selic), agora em 14,50% ao ano, após dois cortes pífios seguidos pelo Banco Central (BC), insuficientes para retirar o país da liderança do ranking da carestia mundial, que segue, impassível, na ponta da maior taxa real do planeta.

Na origem do descalabro da política monetária em curso figura o intencional e eleitoreiro desajuste fiscal, face exposta da gastança federal impune, verdadeiro cheque em branco para despesas, por sua vez, patrocinado pelo arrocho da carga tributária (33% do PIB), que dizima empregos e condena o desenvolvimento econômico.

O escárnio da hora é a constatação de que o ‘preço’ do desequilíbrio (proposital) das contas públicas, na visão tecnocrática ‘glacial’ do mercado financeiro, terá de ser pago (adivinha?), mais uma vez, pelo trabalhador, pois caberá às famílias ‘apertar’ (ainda mais?) os cintos orçamentários, renegociar dívidas (em expansão geométrica, devido ao recurso derradeiro ao cartões de crédito), além de buscar aumento da renda (alô desemprego!), nesse caso, apenas recorrendo aos programas (currais eleitorais) governamentais (coincidência?).

Sequelas macroeconômicas

·         Contração do consumo: com grande parte da renda destinada a pagar juros e amortizar dívidas, as famílias reduzem o consumo de bens e serviços, freando o crescimento econômico.

·         Alta inadimplência e risco de crédito: o aumento do endividamento, especialmente em linhas caras como cartão de crédito (com rotativo superior a 64%), eleva a inadimplência.

·         Impacto no varejo e emprego: o menor consumo afeta o comércio, resultando em menor demanda, margens reduzidas para pequenas empresas e, consequentemente, aumento do desemprego.

·         Aumento de recuperações judiciais: o cenário pressiona o setor corporativo, gerando um recorde de pedidos de recuperação judicial.

·         Risco à estabilidade financeira: o alto nível de endividamento (quase 50% da renda sem considerar o crédito habitacional) cria um risco estrutural para o sistema financeiro nacional. 

·         Perda de patrimônio: famílias endividadas tendem a vender bens ou perder patrimônio para honrar dívidas.

·         Dependência de crédito caro: o ciclo vicioso obriga famílias a buscarem novas dívidas para pagar as antigas, muitas vezes em modalidades de juros abusivos.

Danos sociais

·         Degradação da saúde mental: o superendividamento gera estresse, ansiedade, insônia e perda de produtividade no trabalho.

· Problemas familiares: as dificuldades financeiras desestruturam lares, aumentando os índices de separação conjugal.

·      Isolamento social: a vergonha e a falta de recursos levam ao isolamento e restrição da vida social. 

Endividamento crônico pode

contaminar classificação de crédito

Em perspectiva, a continuidade do estado de endividamento crônico das famílias brasileira poderá ‘ferir’ a avaliação de crédito do país, aponta a agência internacional de classificação de risco Moody’s, o que tornará mais caro o acesso de crédito no exterior.   

De acordo com o vice-presidente sênior do grupo soberano da Moody’s Ratings, William Foster, tanto a inflação, quanto os juros “corroeram a capacidade de pagamento das famílias, particularmente daquelas que dependem de empréstimos sem garantia ou com taxas flutuantes, apesar de um mercado de trabalho forte”.

Mas para que a redução urgente dos juros básicos (Selic) se concretize, o economista da Austin Rating, Rodolpho Sartori, lembra que ‘uma das lições de casa da gestão Lula precisam ser cumpridas, “pois o fiscal continua sendo um 'calcanhar [de Aquiles]' não resolvido".


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