Endividamento crônico de
famílias deve aumentar
Não há alternativas para reverter
quadro no curto prazo
‘O que
está ruim, pode piorar ainda mais’. O ditado soa como sentença implacável,
quando se trata do aumento cavalar do endividamento das famílias brasileiras,
hoje superior a 80% do segmento, com comprometimento de 29% da renda pelo
pagamento de juros.
Tal
cenário apocalíptico do poder aquisitivo tupiniquim tem como principal
‘carrasco’ o patamar indecente dos juros básicos (Selic), agora em 14,50% ao
ano, após dois cortes pífios seguidos pelo Banco Central (BC), insuficientes
para retirar o país da liderança do ranking da carestia mundial, que segue,
impassível, na ponta da maior taxa real do planeta.
Na origem
do descalabro da política monetária em curso figura o intencional e eleitoreiro
desajuste fiscal, face exposta da gastança federal impune, verdadeiro cheque em
branco para despesas, por sua vez, patrocinado pelo arrocho da carga tributária
(33% do PIB), que dizima empregos e condena o desenvolvimento econômico.
O escárnio
da hora é a constatação de que o ‘preço’ do desequilíbrio (proposital) das
contas públicas, na visão tecnocrática ‘glacial’ do mercado financeiro, terá de
ser pago (adivinha?), mais uma vez, pelo trabalhador, pois caberá às famílias
‘apertar’ (ainda mais?) os cintos orçamentários, renegociar dívidas (em
expansão geométrica, devido ao recurso derradeiro ao cartões de crédito), além
de buscar aumento da renda (alô desemprego!), nesse caso, apenas recorrendo aos
programas (currais eleitorais) governamentais (coincidência?).
Sequelas macroeconômicas
·
Contração do consumo: com
grande parte da renda destinada a pagar juros e amortizar dívidas, as famílias
reduzem o consumo de bens e serviços, freando o crescimento econômico.
·
Alta inadimplência e risco de
crédito: o aumento do endividamento, especialmente em linhas caras como
cartão de crédito (com rotativo superior a 64%), eleva a inadimplência.
·
Impacto no varejo e emprego: o
menor consumo afeta o comércio, resultando em menor demanda, margens reduzidas
para pequenas empresas e, consequentemente, aumento do desemprego.
·
Aumento de recuperações judiciais: o
cenário pressiona o setor corporativo, gerando um recorde de pedidos de
recuperação judicial.
·
Risco à estabilidade financeira: o
alto nível de endividamento (quase 50% da renda sem considerar o crédito
habitacional) cria um risco estrutural para o sistema financeiro
nacional.
·
Perda de patrimônio:
famílias endividadas tendem a vender bens ou perder patrimônio para honrar
dívidas.
·
Dependência de crédito caro:
o ciclo vicioso obriga famílias a buscarem novas dívidas para pagar as antigas,
muitas vezes em modalidades de juros abusivos.
Danos sociais
·
Degradação da saúde mental: o
superendividamento gera estresse, ansiedade, insônia e perda de produtividade
no trabalho.
· Problemas familiares: as
dificuldades financeiras desestruturam lares, aumentando os índices de
separação conjugal.
· Isolamento social: a
vergonha e a falta de recursos levam ao isolamento e restrição da vida social.
Endividamento crônico pode
contaminar classificação de
crédito
Em
perspectiva, a continuidade do estado de endividamento crônico das famílias
brasileira poderá ‘ferir’ a avaliação de crédito do país, aponta a agência
internacional de classificação de risco Moody’s, o que tornará mais caro o
acesso de crédito no exterior.
De acordo
com o vice-presidente sênior do grupo soberano da Moody’s Ratings, William
Foster, tanto a inflação, quanto os juros “corroeram a capacidade
de pagamento das famílias, particularmente daquelas que dependem de empréstimos
sem garantia ou com taxas flutuantes, apesar de um mercado de trabalho forte”.
Mas para que a redução urgente dos
juros básicos (Selic) se concretize, o economista da
Austin Rating, Rodolpho Sartori, lembra que ‘uma das lições de casa da gestão
Lula precisam ser cumpridas, “pois o fiscal continua sendo um 'calcanhar [de
Aquiles]' não resolvido".

Endividamento condena famílias à miséria
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