Falta de política pública ameaça safra recorde 

Perdas na produção agrícola podem contaminar cadeia produtiva

portaldoagronegócio

Marcello Sigwalt

A ausência crônica de políticas públicas consistentes e de longo prazo é o fator central que está na raiz na falta de investimento em infraestrutura de armazenagem no Brasil, que se materializa em um déficit histórico que atinge hoje 64% da produção agrícola nacional, mas que impacta toda a cadeia produtiva, logo depois de o país comemorar uma safra recorde de 350 milhões de toneladas.  

Entre os principais impactos da omissão recorrente do Estado na questão da armazenagem, se destacam:

Déficit estrutural: o crescimento da capacidade de armazenagem é inferior à expansão da produção de grãos, resultando em um déficit histórico.

Venda forçada e perdas: sem locais adequados, produtores são forçados a vender a safra imediatamente após a colheita, aceitando preços menores, além de enfrentarem maiores riscos de perda de qualidade dos grãos.

Custo do crédito: Embora existam linhas de financiamento (como o PCA - Programa de Construção e Ampliação de Armazéns), a burocracia e as altas taxas de juros, muitas vezes superiores à taxa Selic efetiva, desestimulam o investimento.

Falta de planejamento de Estado: As ações muitas vezes são vistas como paliativas (plano de governo) e não como um planejamento de longo prazo (plano de Estado), focando pouco na infraestrutura logística interna.

Dependência rodoviária: A ausência de uma rede de armazenamento interiorizada pressiona o transporte rodoviário no momento da colheita, aumentando o custo logístico.

Produção recorde x infraestrutura lenta: o agronegócio brasileiro bate recordes sucessivos, com a produção crescendo seis vezes mais rápido que a capacidade de estocagem. a safra de 2025/26 deve superar 350 milhões de toneladas, enquanto a infraestrutura de armazéns cresce timidamente (+0,5% ao ano), gerando um déficit de mais de 130 milhões de toneladas.

Alto custo de investimento e juros: a construção de silos exige investimentos elevados, e as taxas de juros elevadas, somadas a linhas de crédito muitas vezes burocráticas ou limitadas, desestimulam o investimento privado.

Logística de transporte ineficiente: a dependência excessiva do modal rodoviário (cerca de 60% dos grãos) e a concentração da safra em um curto período ("pico da colheita") pressionam a demanda por armazéns no local de produção.

Falta de armazenagem "On-Farm" (na fazenda): diferente dos EUA, onde a maioria dos produtores armazena sua safra, no Brasil, apenas cerca de 17% das fazendas possuem silos próprios, aumentando a dependência de terceiros (cooperativas/tradings).

Concentração da safra (duas safras): a consolidação da "safrinha" (segunda safra) de milho, muitas vezes colhida logo após a soja, sobrecarrega a capacidade instalada, pois o mesmo armazém é disputado pelos dois grãos.

Desigualdade regional: regiões de nova fronteira, como o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Bahia e Piauí) e o Centro-Oeste, enfrentam maior carência de infraestrutura do que a região Sul.  

Na avaliação de especialistas, uma solução definitiva para o problema demandaria alguns bilhões de reais, nos próximos anos, aporte muito superior à disponibilidade do governo. Somente dessa forma, prosseguem eles, é que seria possível estabilizar o setor e ampliar a competitividade do Agro local.

Tal desarranjo estrutural pode ser retratado pela constante necessidade de o produtor vender sua safra, justamente no momento de “pico da colheita”, quando os preços estão muito baixos (com deságio), impondo prejuízos irreversíveis à sua margem de lucro. Outra sequela relevante, devido à armazenagem inadequada, são perdas de qualidade (umidade e pragas) e prejuízos financeiros.

Como resultado, na ‘ponta do lápis’, para que o déficit nacional de armazenagem de grãos, de 134 milhões de toneladas sem estrutura, no biênio 2025/2026, seja sanado, seria necessário, a princípio, um investimento no montante de R$ 102 bilhões, por meio da combinação de políticas públicas, investimento privado e tecnologias alternativas.

No que toca às estratégias pontuais, para reversão desse estado deficitário do setor primário:

Ampliação do crédito e incentivos fiscais – expansão das linhas de crédito do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) do Plano Safra, com recursos mais acessíveis e taxas competitivas para produtores.

Incentivos fiscais: redução de impostos (como IPI e PIS/COFINS) sobre máquinas, equipamentos e materiais de construção de silos.

Fomento a cooperativas: incentivar o cooperativismo para construção de armazéns comunitários, dividindo os custos entre pequenos e médios produtores. 

Silo Bolsa (bags): adoção de silos bolsa como alternativa rápida e de menor custo para armazenagem diretamente na fazenda, permitindo ao produtor evitar a venda forçada na colheita.

Modernização existente: reforma e ampliação de unidades antigas com tecnologias de automação, secagem e limpeza, o que aumenta a eficiência do giro de estoque.

Monitoramento tecnológico: uso de sensores para monitoramento constante de temperatura e umidade dentro dos silos, reduzindo perdas por pragas ou deterioração. 

Logística e planejamento regional: foco no Centro-Oeste e Matopiba: Priorizar investimentos em regiões com maior déficit, como Mato Grosso e o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Bahia e Piauí), onde a produção cresce exponencialmente, mas a infraestrutura é escassa.

Armazenagem na origem: fomentar a construção de silos nas próprias fazendas (On-Farm), padrão comum nos EUA, para diminuir a dependência de transporte no pico da safra. 

Melhoria na gestão da movimentação: giro de estoque eficiente: utilização de softwares de agendamento (carga e descarga) para otimizar o uso da capacidade existente, permitindo que um armazém estático movimente mais volume ao longo da safra. 

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