Falta de política pública ameaça safra recorde
Perdas na produção agrícola podem contaminar cadeia produtiva
A ausência crônica de políticas públicas consistentes e de longo prazo é o fator central que está na raiz na falta de investimento em infraestrutura de armazenagem no Brasil, que se materializa em um déficit histórico que atinge hoje 64% da produção agrícola nacional, mas que impacta toda a cadeia produtiva, logo depois de o país comemorar uma safra recorde de 350 milhões de toneladas.
Entre os principais impactos da omissão recorrente do Estado na questão da
armazenagem, se destacam:
Déficit estrutural: o crescimento da
capacidade de armazenagem é inferior à expansão da produção de grãos,
resultando em um déficit histórico.
Venda forçada
e perdas: sem
locais adequados, produtores são forçados a vender a safra imediatamente após a
colheita, aceitando preços menores, além de enfrentarem maiores riscos de perda
de qualidade dos grãos.
Custo do crédito: Embora existam
linhas de financiamento (como o PCA - Programa de Construção e Ampliação de
Armazéns), a burocracia e as altas taxas de juros, muitas vezes superiores à
taxa Selic efetiva, desestimulam o investimento.
Falta de planejamento
de Estado: As
ações muitas vezes são vistas como paliativas (plano de governo) e não como um
planejamento de longo prazo (plano de Estado), focando pouco na infraestrutura
logística interna.
Dependência
rodoviária: A
ausência de uma rede de armazenamento interiorizada pressiona o transporte
rodoviário no momento da colheita, aumentando o custo logístico.
Produção recorde
x infraestrutura lenta: o agronegócio brasileiro bate recordes sucessivos, com a
produção crescendo seis vezes mais rápido que a capacidade de estocagem. a
safra de 2025/26 deve superar 350 milhões de toneladas, enquanto a
infraestrutura de armazéns cresce timidamente (+0,5% ao ano), gerando um
déficit de mais de 130 milhões de toneladas.
Alto custo
de investimento e juros: a construção de silos exige investimentos elevados, e as
taxas de juros elevadas, somadas a linhas de crédito muitas vezes burocráticas
ou limitadas, desestimulam o investimento privado.
Logística
de transporte ineficiente: a dependência excessiva do modal rodoviário (cerca de 60%
dos grãos) e a concentração da safra em um curto período ("pico da
colheita") pressionam a demanda por armazéns no local de produção.
Falta de armazenagem
"On-Farm" (na fazenda): diferente dos EUA, onde a maioria dos produtores
armazena sua safra, no Brasil, apenas cerca de 17% das fazendas possuem silos
próprios, aumentando a dependência de terceiros (cooperativas/tradings).
Concentração
da safra (duas safras): a consolidação da "safrinha" (segunda safra) de
milho, muitas vezes colhida logo após a soja, sobrecarrega a capacidade
instalada, pois o mesmo armazém é disputado pelos dois grãos.
Desigualdade
regional: regiões
de nova fronteira, como o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Bahia e Piauí) e o
Centro-Oeste, enfrentam maior carência de infraestrutura do que a região
Sul.
Na avaliação de especialistas, uma solução definitiva para o problema
demandaria alguns bilhões de reais, nos próximos anos, aporte muito superior
à disponibilidade do governo. Somente dessa forma, prosseguem eles, é que seria
possível estabilizar o setor e ampliar a competitividade do Agro local.
Tal desarranjo estrutural pode ser retratado pela constante necessidade
de o produtor vender sua safra, justamente no momento de “pico da colheita”,
quando os preços estão muito baixos (com deságio), impondo prejuízos irreversíveis à sua margem de
lucro. Outra sequela relevante, devido à armazenagem inadequada,
são perdas de qualidade (umidade e pragas) e prejuízos financeiros.
Como resultado, na ‘ponta do lápis’, para que o déficit nacional de armazenagem de grãos, de 134 milhões de toneladas sem estrutura, no biênio 2025/2026, seja sanado, seria necessário, a princípio, um investimento no montante de R$ 102 bilhões, por meio da combinação de políticas públicas, investimento privado e tecnologias alternativas.
No que
toca às estratégias pontuais, para reversão desse estado deficitário do setor
primário:
Ampliação
do crédito e incentivos fiscais – expansão das linhas de crédito do Programa para Construção e
Ampliação de Armazéns (PCA) do Plano Safra, com recursos mais acessíveis e
taxas competitivas para produtores.
Incentivos
fiscais: redução
de impostos (como IPI e PIS/COFINS) sobre máquinas, equipamentos e materiais de
construção de silos.
Fomento a cooperativas: incentivar o
cooperativismo para construção de armazéns comunitários, dividindo os custos
entre pequenos e médios produtores.
Silo Bolsa
(bags): adoção
de silos bolsa como alternativa rápida e de menor custo para armazenagem
diretamente na fazenda, permitindo ao produtor evitar a venda forçada na
colheita.
Modernização
existente: reforma
e ampliação de unidades antigas com tecnologias de automação, secagem e
limpeza, o que aumenta a eficiência do giro de estoque.
Monitoramento
tecnológico: uso
de sensores para monitoramento constante de temperatura e umidade dentro dos
silos, reduzindo perdas por pragas ou deterioração.
Logística
e planejamento regional: foco no Centro-Oeste e Matopiba: Priorizar investimentos
em regiões com maior déficit, como Mato Grosso e o Matopiba (Maranhão,
Tocantins, Bahia e Piauí), onde a produção cresce exponencialmente, mas a
infraestrutura é escassa.
Armazenagem
na origem: fomentar
a construção de silos nas próprias fazendas (On-Farm), padrão comum nos EUA,
para diminuir a dependência de transporte no pico da safra.
Melhoria
na gestão da movimentação: giro de estoque eficiente: utilização de softwares de
agendamento (carga e descarga) para otimizar o uso da capacidade existente,
permitindo que um armazém estático movimente mais volume ao longo da
safra.

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