Crise entre poderes denuncia
‘deterioração institucional’
Descontrole de regras democráticas expõe fragilidade de
instituições

Marcello Sigwalt
O descontrole das regras do ‘jogo democrático’, decorrente da perda
de força, autonomia e legitimidade das instituições que deveriam preservá-las,
é um dos principais fatores da deterioração institucional do país –também chamada
de ‘erosão democrática’ – nos últimos anos.
Os sinais autodestrutivos da democracia ‘verde-amarela’ se multiplicam,
a exemplo de ataques mútuos entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário
(em que um tenta subjugar ou deslegitimar o outro), quando estes deveriam ser
harmônicos, como reza a Constituição federal em vigor.
Evidência – Outra evidência da
decadência dessa interação é a reiterada perseguição ao Judiciário e aos órgãos
de controle, que abrange magistrados, juízes, Ministério Público e tribunais de
contas, a ponto de comprometerem as respectivas funções fiscalizadoras.
A crise se irradia para a mídia, em geral, mediante ataques à
imprensa e à liberdade de expressão, o que inclui jornalistas, veículos de
comunicação, sem contar, sucessivas tentativas de censura, deslegitimação da informação
e disseminação de fake news, de modo a desmotivar a população com relação ao
civismo.
Posturas autoritárias
– Em paralelo, lideranças
políticas adotaram posturas autoritárias, populistas, com base em discursos de
ódio, com o objetivo de fragilizar os direitos individuais e a
representatividade das minorias.
Em comum, tais atitudes – motivadas, em sua maioria, pela busca de proveito
próprio e nunca em favor do país – abre ampla margem para o avanço da corrupção
e da sensação de impunidade, com destaque para a perda de capacidade de investigação
e punição, pelos órgãos de controle, da transparência, da credibilidade das
regras eleitorais e do próprio processo democrático.
Erosão à vista – Em estudo
divulgado recentemente, a Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado
Federal, elencou diversos pontos que caracterizam a ‘erosão institucional no
contexto fiscal, que padece do desgaste das regras orçamentárias e do
questionamento crescente quanto à sustentabilidade das contas públicas, por
conta da constante flexibilização do arcabouço fiscal.
Em tom de alerta, a IFI avalia que a
falta de uma reforma fiscal profunda, voltada à reestruturação de gastos, pode implicar
o estrangulamento do orçamento; comprometimento do custeio da máquina pública
e na eliminação da margem para investimentos.
Por fim, o escândalo financeiro
protagonizado pelo banco Master e da Reag – ambos liquidados, ainda que tardiamente,
pelo Banco Central (BC) – o CEO e chefe de investimentos da gestora de fundos
Verde, Luis Stuhlberger, endossa a expressão ‘deterioração institucional’: “Ainda temos sorte de
o Banco Central e a Polícia Federal terem gente boa investigando, mas o
Judiciário e o Legislativo vão muito mal. Algumas coisas passaram da conta,
como Banco Master e Reag. Mesmo com tudo meio combinado, vira ‘insalvável’.
Minha impressão é que institucionalmente não estamos bem", disse.
Pontos apontados pela IFI:
·
Dívida pública insustentável: a IFI projeta uma trajetória de alta constante para a dívida bruta,
que pode ultrapassar 100% do PIB em 2030 e chegar a 124,9% em 2035,
configurando um cenário de insolvência a longo prazo.
·
Desgaste das regras fiscais: a instituição aponta que o arcabouço fiscal é insustentável sem
medidas adicionais de ajuste. Relatórios recentes indicam que o governo
acumulou cerca de R$ 170 bilhões em despesas fora da regra do arcabouço desde
2023.
·
Aumento de gastos obrigatórios: há um aumento projetado nas despesas obrigatórias que, somado à
receita limitada, deve reduzir drasticamente a capacidade de investimento
federal a partir de 2027.
·
Transparência e credibilidade: a IFI destaca que a contabilidade fiscal, com exclusões e
previsões otimistas, diminui a transparência e gera perda de credibilidade
junto a investidores e agentes econômicos.
A corda está quase estourando
ResponderExcluir