Zero política de longo prazo
condena o país à desindustrialização
Déficit de P&D, escassez de mão de obra qualificada e
dependência tecnológica ‘conspiram’ para futuro ‘nanico’
Marcello Sigwalt
Verborragias eleitoreiras de programas federais supostamente
sedutores, à parte, o fato incontestável é que o processo acelerado de
desindustrialização nacional (ou sucateamento?) em curso deriva de raízes
diversas.
No cerne do problema, o atávico atraso tecnológico do setor, devido
a um déficit crônico em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D); ambiente
macroeconômico adverso (alto custo de capital); oferta de mão de obra
qualificada quase inexistente (vide engenheiros, técnicos aptos a operar IA) e
secular dependência de tecnologias importadas.
Para destrincharmos, um pouco mais, entre as questões
estruturais que nos reservam, desde os primórdios, ao papel de meros
exportadores de matéria-prima e ‘bovinos’ consumidores de produtos agregados do
exterior, se destacam:
®
Custo de capital e juros elevados: ambiente macroeconômico
brasileiro que impõe taxas de juros historicamente elevadas, que encarecem o
crédito e desestimulam investimentos de longo prazo, sobretudo em maquinário
moderno e inovação.
®
Baixo investimento em P&D: proporção em relação ao PIB bem
abaixo de potências industriais e de pares emergentes, além de ser forte
dependente dos parcos recursos destinados ao setor pelo setor público.
®
Fuga de ‘cérebros’ e falta de qualificação: o descompasso
entre o sistema educacional e as demandas do setor produtivo resulta em
escassez de profissionais para lidar com tecnologias complexas da Indústria
4.0. Para fechar o quadro de descalabro, os poucos pesquisadores de excelência acabam
sendo atraídos por salários e condições melhores, oferecidos pelo exterior.
®
Importação de tecnologia sem absorção: historicamente, o
setor industrial tendeu a adquirir tecnologia pronta do exterior em vez de
desenvolver soluções endógenas, limitando a autonomia nacional e a capacidade
de adaptação à realidade local.
®
Burocracia e insegurança jurídica: processos regulatórios
morosos — como o atraso na análise de patentes pelo Instituto Nacional da
Propriedade Industrial (INPI) — e questões tributárias complexas reduzem a
competitividade e afastam centros internacionais de pesquisa.
CNI propõe ‘pilares’ de
modernização e competitividade
Na tentativa de reverter tais mazelas, cristalizadas por um
Estado perdulário, sem compromisso fiscal e passivo no combate à escalada de
violência que sequestra a Nação, a CNI (Confederação Nacional da Indústria)
apresenta medidas em favor da construção de uma política industrial de longo
prazo, pautada pelos pilares da modernização e competitividade:
Estímulo à
inovação:
Ampliação de linhas de financiamento para pesquisa e desenvolvimento (P&D).
Redução do 'Custo Brasil': Eliminação de gargalos logísticos, burocráticos e tributários
estruturais.
Integração
academia-indústria: Conexão de universidades e centros de pesquisa ao mercado
produtivo.
Transição
Ecológica:
Foco em descarbonização, eficiência energética e bioeconomia sustentável.
Inserção
Internacional: Maior participação de produtos industrializados nacionais no
comércio global.
Outro sintoma de que de ‘envelhecimento’ do “made in Brazil” é sua
queda, pelo segundo ano seguido, no Índice Global de Inovação (IGI), ao recuar
para a 52ª posição, entre as 139 economias avaliadas pelo ranking da
Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), em parceria com a CNI, com
base em critérios, como investimentos em pesquisa, capacidade de transformação
de conhecimento em produtos e impacto econômico.
O estudo concluiu, também, que o número de patentes
verde-amarelas atingiu o menor nível em cinco anos. Outro número que atesta a
progressiva ‘evasão de cérebros’ é a perda de 6,7 mil cientistas, entre 2015 e
2022, estimou o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão associado
ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Sucateamento industrial: à vista ou a prazo?
ResponderExcluir