‘Triplo choque’ ameaça futuro
do Agro nacional
Endividamento
elevado, questões geopolíticas e
instabilidade
do clima conspiram contra o setor

Marcello
Sigwalt
Conflitos geopolíticos,
alto endividamento e instabilidade climática. Esses são os fatores que compõem o
‘triplo choque’, que deve impor sérios riscos ao agronegócio nacional, a
despeito dos sucessivos recordes obtidos no primeiro trimestre do ano (1T26),
quando totalizou um volume de exportação de US$ 38,1 bilhões, 0,9% superior a
igual período de 2025 (1T25).
Tal
performance substancial, porém, está longe de garantir que a rentabilidade do
setor esteja livre de pressões, em meio à uma crise marcada pela perda de
resiliência financeira, sobretudo na base da atividade primária, as pequenas e
médias empresas.
O que melhor
expressa a contradição do Agro, ao observarmos o contraste entre sua participação
recorde de 29% no PIB tupiniquim em 2025 – a maior em 22 anos, segundo a Confederação
Nacional da Agricultura (CNA) e o Centro de Estudos Avançados em Economia
Aplicada (Cepea) da Esalq/USP – com a escalada da inadimplência, medida pelo Banco Central (BC),
a reboque da disparada histórica dos pedidos de recuperação judicial.
Como pano de
fundo para este cenário adverso, há o fato de o total de hectares segurados ter
despencado de 7,3 milhões, em 2024, para apenas 2 milhões, no ano passado.
Na verdade, o
modelo de negócio do Agro trilha o caminho perigoso, em que a fronteira da
eficiência operacional não é acompanhada pela devida rede de segurança
financeira. Mas o golpe de misericórdia sobre produtores capitalizados e
detentores de tecnologia de ponta – mas endividados com parcelas de
renegociação acumuladas – é a impossibilidade de contratação de seguro, após o Ministério
da Agricultura e Pecuária (Mapa) ter bloqueado, em junho passado, R$ 445
milhões (R$ 354,6 milhões foram bloqueados e outros R$ 90,5 milhões
contingenciados) do orçamento destinado ao Programa de Subvenção ao Prêmio do
Seguro Rural (PSR) para 2025, ou 42% da dotação inicial prevista, de R$ 1,06
bilhão.
Fatores de risco
Margens apertadas: a margem
bruta da soja caiu drasticamente de 62% em 2021 para 13% em 2024, reduzindo a
capacidade dos produtores de suportar safras ruins.
Aumento de custos e dívidas: produtores
enfrentam custos de produção elevados e maior dificuldade no acesso ao crédito,
levando a um aumento da inadimplência.
Recuperações judiciais: o
endividamento no campo tem gerado um aumento expressivo nos pedidos de
recuperação judicial.
Risco climático e seguro
rural
Clima imprevisível: fenômenos
climáticos têm causado frustrações de safra em diversas regiões, impactando o
patrimônio dos produtores.
Falta de amparo: a área
segurada no Brasil caiu drasticamente, de 13,68 milhões de hectares em 2021
para apenas 3,2 milhões em 2025.
Dependência externa (fertilizantes)
Vulnerabilidade: o Brasil
importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. A dependência de
fornecedores como Rússia e China coloca a produção em risco em cenários de
conflitos bélicos ou instabilidade geopolítica.
Pressão geopolítica e infraestrutura
Custos de produção: o aumento de
custos com combustíveis e insumos afeta a rentabilidade.
Desperdício: o Brasil ainda é um dos
países com maiores perdas de alimentos na produção, transporte e comercialização.
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