Fim de jornada 6 x
1 pode
'descambar' em inflação e recessão
Medida deve impor ‘tombo’ de 7,4% no PIB
Marcello Sigwalt
No ‘picadeiro involuntário’
montado no atual período pré-eleitoral, o apelo demagógico do fim da escala de
trabalho 6 x 1 (a princípio, reduzida de 44 horas para 40 horas e, depois, para 36
horas) equivale à surrada prática política de ‘jogar para a plateia’ que, ao afinal, pagará, como sempre, a conta.
Em um país que
mantém alijados de qualquer direito um ‘exército’ de quase 7 milhões de
indigentes patrícios, cheira a escárnio o oportunismo da medida, que deve
redundar, muito antes do pleito de outubro próximo, em expansão do desemprego, repique
inflacionário, quando não em brutal recessão.
Embora ainda
sujeita a controvérsias, há certo consenso de que a iniciativa tem potencial de
impor ao consumidor uma alta de preços variável entre 6,2% e 13%, em decorrência
do aumento do custo da hora trabalhada e da necessidade de contratar novos funcionários,
para cumprimento da jornada, sem corte salarial.
Observação
semelhante emana da CNC (Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo),
ao estimar que os custos sobre a folha de pagamento devem ‘decolar’, pelo menos, 21%, para um repasse, ao consumidor final, em torno de 13%.
A CNI
(Confederação Nacional da Indústria), por seu turno, admite que os preços do
setor poderão subir 6,2%, enquanto o PIB deverá recuar 0,7% do PIB.
Carro-chefe do
resiliente, mas fragilizado pelos juros (Selic a 14,50% ao ano) - juntamente com
o Agro - o setor de serviços deve amargar uma alta, de 21% a 22%, no custo da
hora trabalhada. Segundo projeções da Fecomercio SP, as perdas anuais, neste
aspecto, podem superar a cifra de R$ 76,9 bilhões. Também aqui a expectativa é
de pressão inflacionária, a reboque da carestia generalizada, seja do valor das
refeições, diárias hoteleiras ou de pacotes de serviços.
Na mesma toada regressiva, relatório do BTG, assinado pelo trio executivo formado por Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, considera que as empresas do comércio varejista poderão apurar um recuo de 9,5% no Ebitda, com destaque para o ‘tombo’ de 13,6% das farmácias, que terão de completar a jornada com a contratação de 30 mil funcionários.
Já no caso do segmento de vestuário, a retração pode
atingir 8,8%, a 8,6% na alimentação e baixar 7,6% no e-commerce. Nesse contexto
crítico, não está descartado o risco de quebradeira de empresas ou de demissão
em massa.
Levando em conta
uma despesa média anual de R$ 67,2 mil por funcionário de loja comercial, a
conta do ‘custo de adaptação’ do setor deverá superar a casa de R$ 2 bilhões.
No plano geral, porém, o diagnóstico da ‘novidade eleitoreira’, por parte do Ibre-FGV (Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) é de que o país pode estar
caminhando, célere, para uma recessão, uma vez que o PIB ‘despencaria’ 2,6% no
1º cenário (redução para 40 horas) e 7,4% no 2º cenário (redução para 36
horas). Nesta última hipótese, o quadro recessivo seria similar ao registrado
no período de 2014 a 2016.

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