Trinômio ‘perverso’ torna gestão econômica ineficaz
Concentração
no resultado primário ‘erra o foco’, admite ex-BC
conteudoms
Marcello
Sigwalt
Um debate ‘estrábico’ e ‘estéril’ porque erra (de propósito?) o
alvo. É essa a conclusão do ex-diretor do Banco Central (BC); consultor do
Banco Mundial; doutor em Economia e diretor-presidente da MCM Consultores,
Claudio Adilson Gonçalez, em seu artigo no Estado de São Paulo, a respeito da
conduta ‘errática’ da gestão econômica do país.
Ao considerar ‘insuficiente’ o foco único no resultado primário,
Gonçalez entende que o problema crucial da economia nacional está associado ao
trinômio perverso ‘dívida pública elevada-juros na lua-crescimento pífio’, da
atual condução da economia tupiniquim. Mas, na sua avaliação, o maior dano reside
na expectativa sobre o comportamento futuro da política monetária e dos prêmios
de risco.
“Como destacou Olivier Blanchard, economias podem operar em dois
equilíbrios. Um “bom”, com juros baixos, inflação controlada e
política monetária eficaz. E outro “ruim”, com juros estruturalmente elevados,
em que a dívida pública passa a limitar a própria política monetária e aumenta
a sensibilidade da economia a choques”, esclarece.
Em tom de advertência, o ex-diretor do BC ressalta que “se não
houver mudança nas expectativas quanto à sustentabilidade da dívida pública, o
País permanecerá preso a um equilíbrio ruim de juros elevados, crescimento
limitado e maior vulnerabilidade macroeconômica”.
Ao lembrar que o país se mantém preso à opção monolítica de
aperto monetário, Gonçalez explica que “com juros reais ainda muito elevados,
estabilizar a dívida pública exigiria superávits primários extremamente altos”,
acrescentando que “simulações indicam que um crescimento anual de 2% e juros
reais próximos aos atuais, exigiriam um superávit superior a 5% do PIB (Produto
Interno Bruto) para estabilizar a dívida, algo claramente inviável”.
Mesmo considerando um ‘cenário benigno’, de juros próximos ao ‘nível
neutro’, o doutor em Economia calcula que seria necessário obter um superávit
correspondente a 3% do PIB, o que requereria “alterações profundas na condução
da política fiscal”.
Outro ponto destacado pelo consultor do Banco Mundial é o
agravamento do o estado de rigidez orçamentária, em que mais de 90% das
despesas primárias têm a rubrica de 'obrigatórias'. Desse montante, 75%
correspondem a três grupos: Previdência Social (43%); despesas com pessoal
ativo e inativo (17%); e programas sociais – Bolsa Família, Benefício de
Prestação Continuada e seguro-desemprego – (15%).
Ao concluir que o quadro atual é marcado pela complexidade (social
e política), o ex-dirigente central condiciona uma solução permanente “à aprovação
de leis e emendas constitucionais, com efeitos que só se materializam no médio
e longo prazos. Não se deve esperar, portanto, grandes cortes de gastos já em
2027”.
No paralelo, Gonçalez define como ‘essencial’ a “adoção de medidas
estruturais capazes de conter, ao longo do tempo, o crescimento dos gastos
obrigatórios, além de reformar o atual arcabouço fiscal para torná-lo factível
e crível”.

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