Terras Raras do Brasil: 

a serviço do grande capital 


País deve se manter como 

mero fornecedor de matéria-prima


           tohamina


Marcello Sigwalt


Detentor da segunda maior reserva mundial de ‘terras raras’ do planeta – 25% do total – cobiçado por dez entre dez das maiores economias mundiais – Brasil tem diante de si uma ‘chance de ouro’ para obter uma vantagem competitiva durante a transição energética, pois seus 17 elementos químicos são essenciais às chamadas indústrias de alta tecnologia (carros elétricos, aviões, turbinas eólicas, smartphones, computadores e mísseis).

Pelo menos, no momento, tal discussão passou a ter importância secundária, face ao imprevisível desfecho da guerra no Oriente Médio, em curso, relegando a segundo plano a preocupação quanto ao risco de o país tupiniquim se limitar, como em ocasiões anteriores, ao papel de mero exportador desses minerais críticos que vão ‘engordar’ (ainda mais) a riqueza dos já muito ricos países centrais.

Mas não é só ao reles papel de eterno coadjuvante do cenário econômico que Pindorama está sujeito, como também aos decorrentes impactos ambientais e socioambientais da atividade, aos quais, ao que parece, sucessivos governos subservientes ao grande capital estarão, sempre, dispostos a ignorar.

A perspectiva é de que se repita a experiência secular de o país se manter na função de repassador de recursos ao exterior, como é o caso da soja, minério de ferro, carne, frutas e tantos outros itens que muitas vezes faltam, a preços acessíveis e republicanos, às mesas de brasileiros e brasileiras.

Foco da disputa geopolítica pelo controle do 'latifúndio global', protagonizado pelos EUA e a China, o Brasil já está sofrendo ataques diretos do capital internacional. Em contraste com a apatia verde-amarela, a mineradora ianque USA Rare Earth anunciou – ironia ou não, na véspera do mártir da independência brazuca (20), o Tiradentes – a aquisição da brasileira Serra Verde pela ‘bagatela’ de US$ 2,8 bilhões. 

Antes que se conclua que o montante é ‘astronômico’, recomenda-se projetar em quantas vezes este será multiplicado pelos gringos, por meio de agregação de valor dos minérios, justamente o ‘dever de casa’ jamais cumprido por aqui.

No rol de riscos impostos pelo atávico despreparo estratégico nacional, cabe destaque:

·         Disputa geopolítica: os EUA buscam ativamente os recursos brasileiros para diminuir a dependência da China (que controla 70% das reservas e a maior parte do refino).

·         Riscos socioambientais: a mineração predatória ameaça biomas e populações locais, com alerta para o risco de contaminação por metais pesados, como o lantânio e o cério.

·         Modelo de exploração: há o temor de que o Brasil se torne um mero fornecedor de matérias-primas, perdendo a chance de industrialização e soberania tecnológica.

·         Cobiça econômica: as reservas são valiosas, com o BID estimando que valham quase o dobro do PIB nacional de 2024, despertando interesse comercial bilionário.

·         Dependência externa: a necessidade de refino tecnológico, que o país ainda carece, pode levar ao controle estrangeiro sobre a produção.  

Por fim, semelhante à uma política pública de ‘porta arrombada’, Brasília acenou com a ‘disposição’ de adotar ‘medidas de controle’, a começar pela criação de mais um 'penduricalho' estatal, a ‘Terrabras, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, encarregada de “coordenar a pesquisa, extração e o processamento nacional, a fim de resguardar a soberania industrial”. Bom discurso, vamos ver a prática nos próximos capítulos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog