Aperto monetário só é eficaz para 'destruir' empresas

Endividamento corporativo recorde totaliza R$ 2,3 tri em 2025

                                                                                                        arquivo GES

Marcello Sigwalt

A gestão econômica perdulária de cunho flagrantemente eleitoreiro, que penaliza, há anos, a sociedade brasileira (aquela que trabalha) e é literalmente ‘financiada’ pelo juro básico (Selic) estratosférico (e campeão mundial) de 14,75% ao ano, acaba de colecionar mais um recorde negativo. Trata-se do colossal endividamento de R$ 2,3 trilhões, referentes a 248 empresas tupiniquins, no final de 2025.

Este montante representa um acréscimo de R$ 1,4 trilhão ante 2020, com um detalhe significativo: excluindo a participação da Petrobras, a conta baixaria para R$ 1,9 trilhão, estima o CEO Einar Rivero, da Elos Ayta.

A escalada das dívidas corporativas, por sua vez, é alimentada pela avalanche de pedidos, igualmente recordes, de recuperação judicial (RJ) no ano passado, que cresceram 20%, ante meados de 2024, quando o Banco Central (BC) passou a elevar o patamar da Selic, então em 10,5% ao ano. A trajetória explosiva, medida pelo Monitor RGF, com base em dados da Receita Federal, ficou patente a partir da expansão de 4.223 empresas em situação de RJ, no terceiro trimestre de 2024 (3T24), para 5.285, em igual período de 2025 (3T25).   

De modo semelhante, a quantidade de recuperações extrajudiciais acompanhou a tendência, em que 80 empresas recorreram a esse processo, segundo aponta o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre).

Nesse rol de fatores adversos, cabe destaque à cavalar carga tributária suportada pelas empresas, que subiu de 29,2% do PIB, em 2020, para 32,3% do PIB, em 2024 (algo próximo a R$ 4 trilhões), com viés firme de alta. Em contrapartida, os cofres federais seguem abarrotados, a julgar pela arrecadação recorde de R$ 325,7 bilhões, apurada em janeiro último.

Indo além dos números globais que atestam a voracidade fiscal (assim como o desajuste fiscal), alguns casos retratam a gravidade da crise para o mercado. Exemplo disso pode ser dado pela Raízen, uma das maiores empresas de energia nacionais, que protocolou processo de recuperação extrajudicial (RE) no início deste ano, única alternativa que lhe coube para tentar sanar dívidas no montante de R$ 65 bilhões. Nessa mesma ‘toada’, o Grupo de Açúcar tomou o mesmo caminho, em meio a um endividamento que totaliza R$ 4,5 bilhões.  

Para o especialista em recuperação judicial e CEO da Siegen, Alexandre Temerloglou, a RE “é um instrumento mais rápido, menos custoso. Já a recuperação judicial costuma ser acionada quando essa janela de negociação se fecha. Em cenários de pulverização de credores, conflitos mais intensos ou risco iminente de execuções que comprometam a operação”.

Neste aspecto, Temerloglou admite que a queda dos juros é o meio mais eficaz de reverter o atual ritmo ascendente das recuperações judiciais, ainda que seus efeitos só se tornem perceptíveis no médio e longo prazos, haja vista que a perspectiva de recuo da Selic passou a ser mais remota, ante a incerteza quanto à duração do conflito geopolítico no Oriente Médio.  

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