Sufocada economicamente pela guerra, o que fará Pequim?

Estratégia bélica dos EUA poderá redundar em conflito nuclear final


emmeconsult


Marcello Sigwalt

Engana-se quem acredita que o foco da investida bélica de ‘Ano Novo’ dos EUA visa erradicar, pura e simples, a pátria do terrorismo internacional, superpotência persa de outrora, o Irã. Na verdade, a mira de Tio Sam tem como destinatário a arquirrival China, cuja economia está sendo, lenta e duramente, destroçada pela ação ianque e israelita.  

O epicentro dessa nova pendenga geopolítica matreira, de fato, é Pequim e não Teerã, o que fica patente com a obstrução calculada do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, por onde fluem 20% do petróleo mundial, ou o equivalente a 20 milhões de barris do ouro negro.

Dependência – Prova de que toda guerra nasce e morre na economia, Washington calibrou seu ataque no coração da economia chinesa, que depende diretamente do estreito em questão. Por ele, atualmente são importados cerca de 10,27 milhões de barris por dia, ou 50% de todo o petróleo adquirido pelo Império do Centro (de países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos), uma nação essencialmente fabril. Enquanto a indústria ianque responde por 17% do PIB dos EUA (80% do PIB vêm dos serviços), para a China, essa proporção é de 37%.

A importância estratégica de Ormuz pode ser medida, não pelo número de petroleiros enfileirados na região, mas pela movimentação desse corredor essencial à máquina da economia mandarim, que constitui a maior ameaça à hegemonia estadunidense no planeta.

Na definição do ex-assessor de energia da Casa Branca, Bob McNally, “um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz é uma recessão global garantida”.

Déficit cavalar – Planejada com antecedência de muitos anos, a ação dos EUA remonta 2018, quando o primeiro governo Trump deflagrou o maior primeiro embate comercial com Pequim, desde a Segunda Guerra Mundial. A motivação para tal iniciativa era o cavalar déficit dos EUA de US$ 419 bilhões contra o país asiático, quando aquele mantinha para este uma alíquota de importação de apenas 3%. Já em 2025, a taxa foi catapultada para 145%.

Talvez pelo seu caráter tardio, a medida acabou surtindo efeitos modestos, pois o déficit comercial mencionado recuou para US$ 308 bilhões no ano passado, ainda assim, o menor patamar desde 2009. Por sua vez, Pequim compensou o tarifaço redirecionando suas exportações a outras regiões do globo (Europa, Asean e América Latina), o que lhe permitiu colher um superávit comercial recorde de US$ 1,19 trilhão.

Avanço resiliente – Embora tenha ‘acusado o golpe’ – seu crescimento desacelerou de 6,6% em 2018, para 4,2% este ano – a economia chinesa manteve um avanço ‘resiliente’. Não satisfeita, a Casa Branca recorreu ao efeito econômico da guerra, artifício explosivo que lembra ato semelhante que precedeu o ataque nipônico à Pearl harbor, base naval dos EUA no Pacífico, em 1941.

‘Paus e pedras’ – Na época, a decisão do país oriental foi uma resposta ao bloqueio ianque às importações de petróleo pelo Japão. Será que a história vai se repetir, a ponto de se tornar o estopim de um conflito nuclear sem vencedores, do que só restarão ‘paus e pedras’, como profetizou o gênio Einstein, em seus últimos anos de vida? A resposta virá na sequência.    

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