Selic ‘absurda’, a ‘bala de prata’ da
economia nacional
Alta meteórica de taxa provoca salto de 572% de recuperações judiciais
Marcello Sigwalt
Uma escalada avassaladora de pedidos de recuperação judicial (RJ), que superaram impressionantes 572%, de 2022 a 2025, segundo a Serasa Experian, não por acaso, coincidem com a ascensão meteórica da Selic (taxa básica de juros), de 9,25% ao ano para 15% ao ano, medida monolítica tomada pelo Banco Central (BC), na tentativa inoperante de ‘domar’ a inflação, que só teve ‘êxito’ em sufocar a atividade empresarial tupiniquim.
Como
a ‘gastança federal’ – devidamente paga com os impostos do cidadão – deverá
persistir, ao menos, até o pleito de outubro próximo, a perspectiva é de que o
‘companheiro’ central mantenha, em ‘doses homeopáticas’, nos próximos meses, a
redução do aperto monetário, a exemplo do recente corte pífio de 0,25 ponto
percentual da taxa, agora em 14,75% ao ano.
Como um ‘efeito dominó’, os juros em
ascensão promoveram alto endividamento das empresas, restrições crescentes de
acesso ao crédito e expansão exponencial da inadimplência.
Por setores, o estrago de tal
política monetária predatória atingiu, em cheio, as micro e pequenas empresas
(MPEs), sobretudo aquelas associadas ao agronegócio, a indústria e os serviços.
No polo oposto ao seu patamar
estratosférico atual – o maior em 20 anos – a Selic exibia, nos idos de 2022,
taxas de apenas um dígito, ‘pretexto’ perfeito deflagrar um endividamento ‘endêmico’
das empresas, reforçado, em seguida, pela ocorrência da pandemia.
“Não é um fato isolado, tivemos uma massa de
empresas em todos os pilares (indústria, comércio, serviços e agro) que se alavancaram
pesadamente quando os juros estavam na casa dos 2% a 4%. Hoje, com a Selic
rodando a 15% ao ano, a conta matemática não fecha”, assinala o sócio da RGF, Rodrigo
Gallegos.
Já na visão do diretor-sênior da Fitch Ratings, Renato Donatti, “além
de pressionar as contas, o cenário de juros altos diminui as margens para as
empresas renegociarem suas dívidas, o que, por sua vez, também as força buscar
a recuperação judicial”.
Do ponto de vista do sistema financeiro, Donatti acrescenta: “E
a Selic é só o piso, os bancos precisam embutir o prêmio de risco (spread) para
ter o retorno esperado, o que joga o custo real da dívida para 20%, 25% ao ano,
batendo 30% quando a empresa está em situação crítica. É muito difícil algum
negócio no Brasil ter margem para arcar com um custo de capital desses quando
alavancado”.
Pondo a ‘bola no chão’ da questão da RJ, Gallegos explica que “o
mercado tem a ilusão de que aprovar um plano com deságio e carência salva a
empresa. Em nossa experiência, não salva. Só negociar o financeiro não deixa a empresa
de pé; em dois ou três anos a dívida volta e o problema explode de novo”,
acrescentando que “o que realmente vira o jogo é a reorganização profunda da
operação, dos produtos e do modelo de negócio para voltar a gerar margens
saudáveis. A renegociação da dívida apenas compra o tempo necessário; o que
salva o CNPJ é a execução com excelência na porta de fábrica e no balcão de
vendas."
Fatores determinantes do pedido de RJ:
Aperto
Monetário
·
Encarecimento da dívida – a elevação da taxa Selic pelo BC
para conter a inflação pós-pandemia elevou drasticamente o custo do serviço da
dívida das empresas. Empresas que se alavancaram (pegaram empréstimos) com
crédito barato em anos anteriores viram suas despesas financeiras explodirem.
·
Restrição ao capital de giro – com juros altos, o acesso ao
capital de giro (essencial para a operação diária, especialmente no comércio e
indústria) tornou-se caro e escasso.
·
Queda na demanda – a Selic elevada reduz o financiamento para
consumo, diminuindo as vendas e a receita das empresas, o que afeta diretamente
o fluxo de caixa.
Desajuste
Fiscal
·
Pressão fiscal e tarifária – a necessidade de aumento de
arrecadação pelo governo (desajuste nas contas públicas) impôs pressões
adicionais sobre o setor privado, muitas vezes chamado de "tarifaço",
elevando custos operacionais.
·
Carga tributária elevada – considerada um dos maiores
componentes do "Custo Brasil", a carga reduz a margem de lucro e a
competitividade, forçando empresas a buscar reestruturação.
·
Incerteza e risco-país – a dificuldade em realizar um
ajuste fiscal consistente aumenta a percepção de risco, o que pressiona os
juros futuros e limita investimentos.
Gênese
A combinação de alto endividamento (causado pela alavancagem
prévia), com juros altos (aperto monetário) e margens apertadas (pela queda de
demanda e custo fiscal) cria uma situação insustentável.
Empresas operacionais em crise: muitas empresas entram em
RJ não porque seu negócio principal é ruim, mas porque a estrutura financeira
("o custo de carregar a dívida") tornou-se impagável.
Aumento de RJs e REx (recuperação extrajudicial): o volume
de reestruturações de dívidas por meio de recuperação judicial e extrajudicial
atingiu níveis históricos em 2025, com destaque para os setores de comércio,
indústria e, crescentemente, agronegócio.
Impacto no passivo fiscal: a regularidade fiscal (pagamento
de tributos) tem se tornado uma condição desafiadora na homologação dos planos
de RJ, com o STJ reafirmando a competência do Fisco em bloqueios, o que aumenta
a pressão sobre o caixa das empresas em recuperação.
Para
mitigar o ‘efeito dominó’, os especialistas recomendam:
·
Rigor nos contratos – revisão detalhada de garantias e cláusulas
de rescisão.
·
Seguro agrícola – proteção essencial contra quebras de safra que
desencadeiam a inadimplência.
·
Gestão de risco – monitoramento constante da saúde financeira de
parceiros comerciais e menor alavancagem em períodos de preços baixos.

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