Custo bilionário de juros será pago por gerações
Com R$ 1,3 tri se construiriam 11 mi de casas populares e 4 mil
hospitais

Marcello Sigwalt
Uma escalada
contínua que deverá marcar os próximos anos (e a vida dos mais de 200 milhões
de brasileiros e seus descendentes), o custo de rolagem dos juros da dívida
pública brasileira deverá consumir até 10% do PIB, o que corresponde a R$ 1,3
trilhão.
Tal montanha de
dinheiro – devidamente ‘financiada’ pela incontinência perdulária (não confundir
com perdulária) crônica do Executivo federal em campanha – se tivesse
destinação social (e não eleitoral) em ações permanentes (digo, ao largo de
pleitos de ocasião).
Para se ter uma ideia
do descalabro, nada ‘republicano’ ou fiscalmente irresponsável, com essa ‘dinheirama’,
seria possível construir 11 milhões de casas populares (zerando o déficit de
infraestrutura educacional básica no país); ergueria 240 mil escolas públicas e
4 mil hospitais de ponta. Em outras palavras, qualquer dessas opções
resgataria, em apenas um ano, ao menos, em parte da dívida social acumulada
desde o século 19, o da Proclamação da ‘República’.
Em perspectiva, a
seara macroeconômica deve apresentar as seguintes características:
Alto patamar da Selic (taxa básica de juros): a Selic deve permanecer em dois dígitos, com projeções do
mercado (Boletim Focus) indicando um patamar próximo a 12,13% ao ano no fim de
2026, mantendo o custo do dinheiro alto.
Desequilíbrio fiscal e aumento da dívida: a trajetória de crescimento da Dívida Bruta do Governo
Geral, que atingiu 78,7% do PIB em 2025, eleva o risco fiscal e obriga o
governo a pagar juros mais altos para se financiar.
Expansionismo fiscal: a falta de cortes
expressivos nas despesas públicas (gastos obrigatórios e sociais) pelo governo
e Congresso aumenta o temor de investidores quanto à sustentabilidade das
contas.
Inflação persistente: choques de
preços em itens essenciais, como alimentos e combustíveis, sustentam as
expectativas de inflação elevada, forçando o Banco Central a manter juros altos
por mais tempo (política monetária contracionista).
Incerteza e risco-país: a insegurança
dos investidores sobre a condução da política fiscal (o cumprimento das metas
de inflação e de superávit) e possíveis desconfianças sobre a política
econômica aumentam o prêmio de risco, elevando as taxas de juros de longo
prazo.
Gastos parafiscais: despesas fora
do orçamento principal, mas que aumentam o passivo do governo, continuam a ser
uma preocupação para o cenário fiscal.
Rolagem da dívida: grande parte
da dívida pública é financiada com títulos que sofrem variação da Selic (juros
flutuantes), o que faz com que a alta dos juros tenha impacto imediato no fluxo
de caixa do Tesouro.
Para fechar a conta
do desperdício, a Instituição Fiscal Independente (IFI) – órgão vinculado ao
Senado – observa que, além da União, estados e municípios têm sua cota de ‘contribuição’
para o equilíbrio (ou desequilíbrio) das contas públicas, com destaque para
despesas com pessoal.
Segundo o diretor da
IFI, Alexandre Andrade, “[o aumento da despesa de pessoal] acende um sinal de
alerta, porque se trata de despesas obrigatórias de caráter continuado. Caso
ocorra alguma reversão no cenário que afete a arrecadação desses entes, os
estados podem ter problemas. Os investimentos tendem a ser uma das variáveis a
sofrer ajustes. Então pode haver um risco de interrupção dessas obras”.
Conta 'perversa' – Na conta da perversidade monetária, a cada nova alta de 1 ponto percentual da Selic, a dívida pública verde-amarela cresce a bagatela de R$ 55 bilhões. Na avaliação do economista e conselheiro de política econômica, Stefan D'Amato, “uma política monetária mais coordenada com a política fiscal e com uma estratégia de desenvolvimento produtivo, incorporando explicitamente objetivos de crescimento e empregos, cria um ambiente mais favorável ao investimento, fortalece a capacidade produtiva do país e contribui para um ajuste sustentável da dívida, substituindo a lógica de contenção permanente por um projeto consistente de crescimento econômico e inclusão social”.
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