Concentração de ‘especializações’ sela destino de milhões
Subproduto da concentração de renda
amplia desigualdade no país
Marcello Sigwalt
Marca registrada da visceral
desigualdade do mercado de trabalho no Brasil, há fartura de vagas, ante uma
oferta ainda maior de mão de obra em busca, meses a fio, de uma nova
oportunidade. Mas, então, por que essa conta não fecha?
Mais repugnante do que a resposta é a
constatação de que não há uma solução à vista ou a prazo para esse drama enfrentado
por milhões de famílias de nacionais, solenemente ignorado pela grande mídia.
Subproduto nefasto – Na avaliação de especialistas, a crescente concentração de renda tupiniquim – certamente, situada entre as três maiores do planeta – carrega um subproduto nefasto do capitalismo, a concentração de especializações, o que traduziria um ‘ciclo vicioso estrutural’, no economês, fenômeno típico de economias altamente desiguais, como a nossa. Tal quadro se agrava, em razão da ausência de mecanismos de controle social eficientes, hoje inteiramente desarticulados pela bestial polaridade política.
A perspectiva adversa é patenteada pela 9ª
edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da Sondagem de Mercado de
Trabalho da FGV Ibre, a qual apontou que mais da metade dos trabalhadores
consultados (53,6%) reconheceu barreiras persistentes para conseguir trabalho, tarefa
classificada como ‘difícil’ ou ‘muito difícil’.
Horizonte sombrio – Consolidando o viés mais negativo, desde outubro de 2025, o estudo observou que, para 34,3% do universo pesquisado, a tendência é de que a situação fique ‘pior’ ou ‘muito pior’, ao passo que outros 33% têm a expectativa de que está “tende a melhorar ou melhorar muito”. Já os 32,7% restantes ‘apostam’ em estabilidade.
Também classificado de ‘funil da especialização’,
a concentração rentista age como um ‘ferrolho’ que limita o acesso de parcela
majoritária da população, alijada, desde cedo, de uma educação de alta
qualidade, assim como de oportunidades de treinamento, regalias, mais uma vez,
reservadas a uma elite sem qualquer compromisso com o país.
'Desigualdade estrutural' – Por tabela, a inoperância de uma política pública que corrija as distorções do capitalismo selvagem predatório verde-amarelo, além de ‘patrocinar’ a ilusão de que a produtividade resultará em melhores posições funcionais e promoções, igualmente acirra a chaga histórica do racismo e da chamada ‘desigualdade estrutural’, ao contemplar, na maior parte das vezes, profissionais de cor branca, em detrimento da maioria parda, mulata e negra, massa da população.
Como resultante, a queda nominal das taxas de desemprego (que baixaram a 5,6%, no início deste ano) acaba distorcendo a percepção da realidade do mercado, associada ao fenômeno intitulado “paradoxo do mercado de trabalho” ou “apagão de mão de obra”, devido à uma combinação de fatores de naturezas diversas (estruturais, demográficos e comportamentais):
- Descompasso entre qualificação e vagas: muitas empresas relatam dificuldade em contratar, enquanto milhões continuam desempregados. Isso ocorre porque os candidatos muitas vezes não possuem as habilidades técnicas (hard skills) ou comportamentais (soft skills) exigidas pelas novas demandas do mercado.
- Impacto da tecnologia e IA: a automação e
a inteligência artificial estão mudando o perfil das vagas, eliminando postos
de trabalho tradicionais e exigindo maior nível de qualificação, o que
dificulta a entrada de iniciantes.
- Mudanças no perfil da geração Z: há relatos de empresários sobre dificuldades em preencher
vagas que exigem trabalho aos sábados ou presença física, com muitos
trabalhadores buscando maior flexibilidade e propósito, resultando em alta
rotatividade (turnover).
- Baixa produtividade e educação: a defasagem na qualificação técnica e a desigualdade no
acesso à educação de qualidade dificultam a inserção produtiva, especialmente
para os jovens.

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