Bomba financeira dos EUA pode implodir economia global
Vencimentos do Maturity Wall deste ano somam US$
10 tri
Marcello Sigwalt
A economia do planeta corre o risco de ser mortalmente atingida por outro tipo de bomba, mas de natureza monetária. Trata-se do “Maturity Wall” (ou parede de vencimentos, na tradução livre), a colossal dívida financeira dos EUA, avaliada em US$ 10 trilhões, cujos respectivos vencimentos devem eclodir, em sua maioria, ainda neste ano, colocando em xeque seu título como ‘devedor supremo’ do mundo.
Na verdade, esse sinal de alerta pode significar o prenúncio da
derrocada do país ianque, cuja ‘supremacia’ se apoia, muito mais, em seu poderio
militar e tecnológico, do que propriamente numa suposta hegemonia econômica, crescentemente
decadente, ante um mercado francamente globalizado e diferenciado.
Essa realidade pode ser contabilizada por dados atualizados por instituições
insuspeitas, como o FRED (Federal Reserve Economic Data), divisão de estudos
econômicos do bc estadunidense – reforçada pela consultoria britânica True
Insights – para quem a iminente pressão por refinanciamento poderá ‘alimentar’
uma gigantesca onda de volatilidade para os títulos públicos do Tesouro norte-americano.
A trajetória cadente dos papéis de Tio Sam tem sido objeto de preocupação de analistas, com base em um cenário marcado por déficits crescentes e uma liquidez global sob pressão. Nessa ‘toada’, o custo para rolagem da dívida poderá elevar os juros locais e o valor do dólar, o que não é uma boa notícia para a praça tupiniquim. Em perspectiva, não se descarta o risco de o chamado ‘muro de dívida’ americana no ano corrente ‘drenar’ quase que integralmente o investimento global.
Didaticamente, o ‘Maturity Wall’ corresponde a um volume massivo
de dívidas corporativas e imobiliárias, contratadas a juros baixos (em
especial, no biênio 2020-21), que passaram a vencer no ano passado e no atual,
o que vem forçando empresas a buscarem refinanciamento, em um ambiente que se
caracteriza por juros elevados e condições de crédito mais restritivas.
Entre os
impactos mais relevantes do Maturity Wall para o globo:
·
Risco de insolvência e recessão: Empresas que
emitiram dívida com juros próximos a zero enfrentam custos 2 a 3 vezes maiores
para rolar suas dívidas, o que pode esgotar o caixa, aumentar o risco de
falência e levar a demissões em massa.
· “Vácuo de liquidez”: Com o aumento das
taxas de juros, o capital disponível é absorvido para o pagamento de juros da
dívida antiga, em vez de financiar novos projetos ou investimentos (Capex),
restringindo o crescimento econômico.
· Crise no mercado imobiliário
comercial (CRE): O setor de propriedades comerciais (escritórios, imóveis
multifamiliares) é um dos mais atingidos, com cerca de US$ 1,26 trilhão em
dívidas imobiliárias vencendo em 2026-2027, elevando o risco de inadimplência
em bancos.
· Aumento da inadimplência
(defaults): Especialistas
preveem uma alta no índice de inadimplência, especialmente para empresas com
classificação de risco "CCC" ou inferior, à medida que o refinanciamento
se torna insustentável para empresas menos qualificadas.
·
Volatilidade nos mercados
financeiros: O
vencimento concentrado pode gerar alta volatilidade nas bolsas de valores, pois
os investidores temem um "pouso forçado" da economia em vez de uma
aterrissagem suave.
Nos âmbitos regionais/setoriais:
· Estados Unidos: Enfrenta um Maturity Wall severo, com cerca
de US$ 2,3 trilhões em dívidas corporativas vencendo em 2025-2026.
· Europa: Também enfrenta pressões significativas, com
índices de inadimplência previstos para se estabilizarem em patamares elevados
após um pico, com destaque para a dívida de alto rendimento (high yield).
· Setor financeiro: O Citi prevê impactos, mas gerenciáveis,
nos lucros de bancos (incluindo no Brasil), enquanto o mercado de crédito
privado nos EUA cresceu substancialmente (atingindo US$ 3 trilhões), assumindo
parte dos riscos de refinanciamento.
Embora o Maturity Wall seja considerado um risco significativo,
analistas sugerem que muitas empresas com grau de investimento (investment
grade) conseguirão se refinanciar, embora a custos maiores, concentrando o
risco real nos emissores de alto risco ("junk bonds").

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