Pedidos de recuperação judicial (RJ) se alastram no país

Número de empresas solicitantes cresceu 24,3% em 2025


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Marcello Sigwalt

A escalada ‘sideral’ descrita pela taxa básica de juros (Selic) – mantida há oito meses no patamar  de 15% ao ano pelo Banco Central (BC), onerando o crédito, sufocando o caixa das empresas e inviabilizando investimentos e empregos – é a principal ‘vilã’ do número recorde de pedidos de recuperação judicial (RJ), em 2025, por 5,680 companhias, contingente 24,3% superior ao do ano anterior. Se consideradas aquelas em processo de reestruturação (1.665) – pelo mesmo comparativo – o percentual chegou a 35,2%.

Em grau similar de importância, se encontram outras variáveis, como elevada inadimplência, inflação persistente, fragilidade na gestão, esta última, que impactou mais diretamente micro e pequenas empresas (MPEs).   

Na avaliação de especialistas, a dificuldade de acesso ao crédito se acentuou após o escândalo bilionário da Lojas Americanas, em 2023, fraude na casa de R$ 40 bilhões, agora agravado pelo rombo, igualmente bilionário, do banco Master, de valor semelhante.

Em diagnóstico preciso do estado doentio das empresas, por conta do aperto monetário – perpetrado pela autarquia, a título de conter a inflação, provocada pelo perdularismo do Planalto – o Índice RGF de Recuperação Judicial observa uma disparada de pedidos de RJ no último trimestre de 2025 (510), 7,5% a mais do que em igual período de 2024 e o maior volume registrado na série histórica.

O levantamento do índice aponta, ainda, uma disparada no endividamento das empresas em crise no período analisado, em que as 510 companhias mencionadas declararam dívidas de R$ 40 bilhões, mais que o dobro dos R$ 16 bilhões registrados no trimestre anterior, montante puxado, em grande parte, pelo pedido de RJ da indústria petroquímica Unigel, seguido da Ambipar, Bombril e Inercement.

Embora considere ‘baixa’ a quantidade de empresas em crise, (2,3 em cada 1 mil), o índice admite que a situação é mais grave em setores-chave para o crescimento econômico, como agropecuária (13,53), na indústria (6,74) e na infraestrutura (4,11). Abaixo da média nacional ficaram o comércio (1,81) e os serviços (1,02).

Para 2026, a perspectiva é de agravamento da crise, como prevê o presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon: “A crise vai ser muito pior neste ano. Viemos de um nível de endividamento que tem se agravado com essa questão dos juros. Com taxas que vão de 15% a 20% nos bancos, o produtor ou empresa não consegue renegociar a dívida. O que está restando é a recuperação judicial”.

Na avaliação do mercado, o cenário econômico deve se deteriorar, ainda mais, pelo fato de um volume crescente de grandes empresas estar aderindo à RJ, o que pode deflagrar um ‘efeito cascata’ em pequenas e médias empresas.  

Reforçando a previsão temerária, a consultora da RGF, Roberta Gonzaga explica que, como “as empresas tiveram o plano aprovado, considerando uma premissa muitas vezes mais conservadora ou um recuo da taxa de juros, mas esses fatores têm que continuar sempre monitorados e ajustados. Não é porque aprovou a recuperação que a empresa começa sem dívidas. Ela tem que pagar todo o passivo que foi negociado”.

No plano regional, o Mato Grosso do Sul é o estado com solvência mais expressiva (84% no ano passado) por 68 empresas do agronegócio (soja e bovinos).  No caso específico da soja, ao menos 217 empresas se encontram em situação crítica (o dobro de 2024), devido a custos de produção elevados, baixo preço da commodity, juros altos e restrições de crédito.

‘Combo perverso’ de fatores que constituem a política monetária contracionista:

Juros Elevados (Selic): A taxa básica de juros alta aumenta o custo da dívida, pressionando o fluxo de caixa e dificultando a rolagem de passivos.

Crédito Restrito: Bancos endureceram a concessão de crédito devido ao risco de inadimplência, limitando o acesso a recursos para empresas em dificuldades.

Micro e Pequenas Empresas (MPEs): Responsáveis pela maioria dos pedidos, enfrentam maior fragilidade financeira e dificuldade de adaptação.

Endividamento e Gestão Deficiente: Falhas na gestão financeira e alto endividamento estrutural, muitas vezes agravados pela falta de separação entre finanças pessoais e empresariais.

Custo Operacional e Inflação: A inflação elevada pressiona os custos operacionais, reduzindo margens de lucro.

Setores Críticos: O agronegócio, comércio e serviços são setores com alta incidência de pedidos devido a quebras de safra ou queda no consumo.

Fatores Externos: Impactos de sanções comerciais ou variações cambiais, além da dificuldade na renegociação com credores financeiros.




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