Maioria de capital externo que entra no país é especulativa

 ‘Hot money’ nada contribui ao crescimento econômico nacional


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Marcello Sigwalt

A despeito da entrada recorde (R$ 26,8 bilhões) de recursos estrangeiros na B3 (BSA3), acumulados no ano, até 4 de fevereiro – montante superior ao ingresso total de 2025 (R$ 26,47 bilhões) – é bom deixar claro que estes, em sua maioria, são classificados como ‘hot money’, ou ‘capital especulativo’, que se remunera em um determinado mercado com a mesma rapidez que o deixa.

Na verdade, a súbita atratividade do mercado tupiniquim está diretamente associada a fatores externos, do que propriamente pelos ‘fundamentos’ da economia brasileira, tende em vista a tendência de queda dos juros nos EUA, face à uma estabilidade da inflação ianque.

Política monolítica  Em contraste, o Banco Central (BC) segue firme ‘arrochando’ o bolso do brasileiro, ao manter, há pelo menos, oito meses, os juros básicos (Selic) em 15% ao ano, segunda maior taxa real do planeta. Se por um lado, tal política monolítica atrai o especulador externo ávido, na prática, esta afasta, 'sine die', a chegada do Investimento Estrangeiro Direto (IED), ou seja, o que vem aqui para ficar e investir, preferencialmente, em fábricas, mineração e energia.

Outra explicação, de natureza mais técnica, é que a transferência dos valores, a maior parte procedente do mercado estadunidense, seria motivada pela chamada ‘rotação de portfólios globais’, em busca de ‘mercados emergentes’.

Esse rápido deslocamento foi determinante para que a bolsa brasileira acumulasse recordes seguidos, atingindo o patamar de 147 mil pontos. Em contraste à voracidade gringa, o investidor local apresenta um comportamento mais comedido, em busca de informações que lhe permitam vislumbrar, com mais nitidez, as perspectivas para os próximos meses.  

Apetite estrangeiro – Ao apontar que o fluxo mensal de janeiro último na B3 foi o maior já registrado na série iniciada em janeiro de 2022 – desconsiderando ofertas públicas iniciais (IPOs) e follow-ons – levantamento da consultoria Elos Ayta avalia que o forte afluxo externo “reforça a leitura de que o apetite estrangeiro pela renda variável brasileira não se resume a operações pontuais, mas indica uma reavaliação mais ampla de risco, preço e posicionamento estratégico”.

Sem contar euforias midiáticas da hora, o contraponto essencial à passagem efêmera do especulador internacional pelo mercado de ‘Pindorama’ é o contexto protecionista local, caracterizado por barreiras estruturais e institucionais limitantes da participação brasileira no total de investimentos globais.   

Para melhor entendimento da gama de fatores que ‘repelem’ a chegada dos IEDs no país, destacamos (por IA):

Ambiente de negócios complexo (Custo Brasil): o Brasil é reconhecido por burocracia excessiva, um sistema tributário complexo e oneroso, e insegurança jurídica, que aumentam os custos de produção e desestimulam investidores estrangeiros. 

Instabilidade econômica e política: a volatilidade cambial, pressões inflacionárias, déficits fiscais persistentes e ruídos políticos aumentam o risco percebido pelos investidores internacionais.

Infraestrutura deficiente: a falta de infraestrutura competitiva (portos, rodovias, ferrovias) eleva os custos logísticos, tornando o país menos atraente em comparação a outros competidores globais.

Concentração setorial: a maior parte do IED direcionado ao Brasil concentra-se na exploração de recursos naturais (minério de ferro, óleo e gás) e no mercado consumidor interno, em vez de focar na indústria de alto valor agregado ou tecnologia, limitando a diversificação dos investimentos.

Riscos de volatilidade no mercado de capitais: diferente do investimento em produção, o investimento "institucional" (na bolsa) tem mostrado desinteresse, com investidores receosos quanto à sustentabilidade da dívida e ao crescimento econômico.

Concorrência global: setores produtivos enfrentam concorrência de outros países em desenvolvimento (como na Ásia), que oferecem maior estabilidade ou incentivos industriais mais agressivos.

Também cabe aqui exibir um comparativo entre a economia local e seus pares emergentes:

Índia: destaca-se como um dos maiores receptores, atraindo sólidos investimentos nos setores de tecnologia, serviços e projetos "greenfield", que remete ao desenvolvimento de novas instalações, infraestruturas ou sistemas do zero, em um local previamente inexplorado, sem a necessidade de demolição ou reformas de estruturas existentes.

China: apresenta fragilidade no ingresso de FDI, com queda de 29% em um dos últimos períodos, resultando em níveis 40% abaixo do pico de 2022, devido à incerteza econômica e limitações no setor privado.

México: beneficia-se da relocalização de cadeias produtivas (“nearshoring”), com FDI subindo 11%, apesar da volatilidade política.

Sudeste Asiático (ASEAN): mostra resiliência e crescimento, com recordes de FDI em alguns países membros (ex: 235 bilhões de dólares em 2024).

África/Egito: um salto notável de 84% no FDI na África, impulsionado por um grande projeto no Egito (Ras El-Hekma), embora o restante do continente tenha recuperação modesta.

Europa emergente: países como Polônia beneficiam-se de fundamentos sólidos, enquanto Hungria e República Tcheca experimentam retração. 

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