‘Leniência’ programada do caso Master acende sinal vermelho
Ausência de medidas que evitem novo rombo ‘cheira’ à conivência

jornalcontabil
Marcello Sigwalt
Em
que pese a profusão exaustiva de artigos e matérias publicadas a respeito do
rombo bilionário (R$ 47 bilhões, numa estimativa ‘otimista’) do banco Master, a
pergunta de 1 milhão de dólares que não quer calar, continua sem resposta: Mas
por que ‘cargas d’água’ os órgãos reguladores – Banco Central (BC) e
a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) se omitiram no momento em que deviam
defender o investidor, o mercado e, principalmente, o contribuinte, ao
protelar, por meses a fio, sua liquidação extrajudicial, afinal decretada em
novembro último, quando essa medida já havia se tornado inócua?
'De
proa' – A
explicação mais plausível, jamais cogitada pela grande mídia (sobretudo
eletrônica), estaria associada às ligações nada republicanas de personalidades
de ‘proa’ dos três poderes com a instituição liquidada, em que seus depósitos
correspondiam a menos de 1% (R$ 22,9 milhões) do que seria exigível pelas
normas regulatórias (R$ 2,537 bilhões).
Na
verdade, o estado de deterioração do Master já era irreversível, um ano antes,
em que Vorcaro & cia vinham descumprindo sistematicamente as determinações
do BC – ainda sob a batuta do então xerife Campos Neto – no sentido de efetuar
o recolhimento dos depósitos compulsórios, negativa que atesta, de forma
inequívoca, o estado de insuficiência de fundos, conforme relato do TCU
(Tribunal de Contas da União) à autoridade monetária na época.
Gama
de crimes – Toda
essa gama de crimes (desvio de recursos, gestão fraudulenta, associação
criminosa à corrupção passiva, indução a erro de repartição pública e fraude à
fiscalização) denuncia um cenário marcado pela ‘leniência’, tolerância
excessiva, frouxidão na fiscalização, falta de rigor na aplicação de regras ou
penalidades mais do que justificadas.
Como
salvaguarda conveniente (ou seria conivente?), aciona-se o Fundo Geral de
Crédito (FGC), eufemismo tecnocrático para a alocação de recursos pelos bancos,
‘devidamente’ financiados pelos clientes-contribuintes-cidadãos, perfazendo a
cifra astronômica de R$ 55 bilhões, estimam especialistas independentes. via
majoração de tarifas e juros, sem contar uma contribuição extraordinária
mensal, a fim de recompor a caixa do Fundo.
Fraude
anunciada – Na
verdade, a tal ‘crônica de uma fraude anunciada’ vinha ‘ganhando corpo’, desde
2023, quando o então presidente do BC, Campos Neto admitira que o Master já
enfrentava uma ‘crise de reputação’, à medida que se multiplicavam alertas
disparados por banqueiros. Essa condição precária ficava patente, devido à sua
grande dependência de captações de CDBs (Certificados de Depósito Bancário),
passivos irreais e desvios de empréstimos que somavam R$ 11,5 bilhões, acumulados no
período de julho de 2023 a julho de 2024. Na ocasião, Neto também reportou que
a diretoria de Fiscalização do BC emitiu parecer em que ‘não via necessidade’
de liquidação do Master, que apresentava ‘insuficiência de capital’ e nada mencionou sobre as inúmeras fraudes cometidas, já de domínio público.
No
melhor estilo ‘pôr cadeado na porta arrombada’, o atual presidente da
autarquia, Gabriel Galípolo, mais recentemente, determinou a abertura de uma
‘investigação independente’ para avaliar por que “a fiscalização não teria identificado com mais celeridade as supostas fraudes”. A instituição central continua
devendo uma resposta crível à população brasileira.
Principais
causas do maior escândalo financeiro da história econômica do país:
·
Falta
de compulsórios: a
legislação brasileira exige que os bancos mantenham uma parte dos depósitos dos
clientes no Banco Central. No caso do Master, esse recolhimento estava drasticamente
inferior ao obrigatório, evidenciando uma grave crise de liquidez e gestão de
risco.
· Aviso prévio e investigação: o Banco Central já monitorava a
instituição e, em 2024, alertou a administração do banco sobre a necessidade de
sanar a falta de liquidez, o que não ocorreu de forma estrutural.
·
Caixa
mínimo: em
depoimento, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino informou que o banco
contava com apenas R$ 4 milhões em caixa pouco antes da liquidação, um valor
irrisório diante do tamanho do passivo.
· Modelo de negócio e FGC: o controlador do banco, Daniel
Vorcaro, admitiu à Polícia Federal que o modelo de negócios se baseava
fortemente no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A quebra gerou um impacto de
mais de R$ 47 bilhões ao FGC.
· Investigação da PF: a Polícia Federal investiga
fraudes financeiras e a emissão de títulos sem lastro.
A 'epidemia' Master
ResponderExcluir