Bolha de crédito privado dos EUA prestes a ‘estourar’  

Impacto sistêmico global da crise envolve US$ 3 trilhões

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Marcello Sigwalt

Embora não seja vista, ‘ainda’, como sistêmica e de porte global como a de 2008, a crise de crédito privado dos EUA, no biênio 2025-2026, tem todos os ‘ingredientes’ para se tornar planetária, em que pese sua firme trajetória ascendente atual.

De acordo com observação de analistas, a nova ‘bolha’ teria como ‘epicentro’ indícios de inadimplência crescente de empresas de médio porte, mas também pelo nível elevado de alavancagem de gestores não bancários. No entendimento do executivo do JP Morgan, Jamie Dimon, “crises de crédito raramente são isoladas”, tendo em vista o colapso recente de empresas, como Tricolor e First Brands, o que pressupõe ‘problemas maiores’.

Para traduzir, de forma mais explícita, o quadro econômico estadunidense, Dimon, há quatro meses, recorreu à uma linguagem literalmente ‘rastejante’: “Meu alerta dispara quando coisas assim acontecem. Talvez eu não devesse dizer isso, mas quando você vê uma barata, provavelmente há mais. Então, todos devem estar avisados”.

Ele acrescenta que, em comum, tanto a Tricolor, quanto a First Brands eram ‘respaldadas’ por crédito privado, na categoria ‘shadow bank’, ou aquele não diretamente regulado e desobrigado da divulgação do nível de risco em suas carteiras, prática recorrente em uma indústria que somaria a ‘bagatela’ de US$ 3 trilhões. 

Essa modalidade de preocupação, portanto, superaria o caráter avassalador dos investimentos bilionários em Inteligência Artificial (IA) ou mesmo de valuations ‘esticados’ das chamadas 'big techs'. Já o investidor Jeffrey Gundlach é mais direto, ao acusar o setor de tomar ‘empréstimos de lixo’.

Em tom mais ‘contemporizador’, especialistas do Morgan Stanley avaliam que, se não houver um choque macroeconômico mais severo, os ‘fundamentos’ de algumas empresas podem, até, melhorar.

Outras fontes do mercado, contudo, associam a gravidade da situação ao que descrevem como ‘opacidade de mercado’, ou a dificuldade de avaliar riscos reais, abrindo margem para o aumento da inadimplência e de falências corporativas, o que agravaria ‘problemas de liquidez’, pressionaria bancos regionais e ampliariam a exposição de investidores individuais a esses ativos.

Reforçam a perspectiva sombria, relatório recente do gigante suíço UBS Group, alerta para o risco de as taxas de inadimplência no crédito privado nos EUA subirem para 13%, enquanto que, no caso de empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento, esta poderia chegar a 8% e 4%, respectivamente. 

 Sinais que evidenciam a gravidade da (nova) crise ianque:

·         Inadimplência elevada: a taxa de inadimplência (default rate) no crédito privado nos EUA aumentou, atingindo 5,7% em novembro de 2025, o maior nível desde o início das medições da Fitch Ratings em agosto de 2024.

·         "Cracks" no mercado (bad PIKs): há uma alta no uso de pagamentos "payment-in-kind" (PIK), onde o devedor não paga juros em dinheiro, mas adiciona ao principal. Em 2025, 57,2% desses PIKs foram considerados "ruins" (bad PIKs), indicando que os devedores estão sem caixa, um sinal claro de estresse financeiro.

·       Setores em risco: a inadimplência espalhou-se, com aumentos notáveis em setores como automotivo, industrial, materiais de construção e mídia.

·    Projeção de crescimento da bolha: O mercado de crédito privado, que serve empresas que não conseguem financiamento bancário tradicional, cresceu para cerca de US$ 5 trilhões até 2029. Essa rápida expansão e falta de transparência geram temores de um colapso repentino.

·         Risco de contágio: embora o crédito privado seja um mercado não bancário, os bancos regionais estão muito expostos a essas instituições financeiras não bancárias (credores privados). 

Por definição, alavancagem está associada à uma estratégia financeira que utiliza capital de terceiros (empréstimos, margem da corretora) ou instrumentos derivativos para aumentar o potencial de retorno de um investimento. Tal como uma alavanca física, a iniciativa permite movimentar um valor muito maior do que o capital próprio investido, mas com a mesma proporção de risco: potencializa ganhos e perdas, podendo levar à perda de todo o capital investido se a operação der errado. (IA)

 

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