Aprofundamento da crise
fiscal pode paralisar máquina pública
Analistas admitem
risco iminente de um ‘shutdown’ brasileiro
Marcello Sigwalt
Por motivos
diferentes, o Brasil poderá reeditar, o mais breve que se poderia imaginar, a
‘paralisia de sua máquina pública’, a exemplo do decantado ‘shutdown’, suspensão
dos serviços públicos federais nos EUA. Isso porque, enquanto a Casa Branca
padeceu de insuficiência orçamentária, as dificuldades do Palácio do Planalto
de manter o funcionamento de ministérios e agências seriam de natureza
eminentemente fiscal.
No caso brasileiro,
a crise que se avizinha é mais temerária, devido ao seu caráter gradual, mas
não menos impactante, em que a paralisação dos serviços públicos corre o risco
de ocorrer, se estendendo deste ano até 2027. De acordo com cálculos da
Instituição Fiscal Independente (IFI), caso não sejam feitas ‘revisões
estruturais’ no arcabouço fiscal, o espaço para gastos discricionários deve
chegar a zero em 2029.
'Inanição' – Nesse cenário trágico iminente, definido clinicamente pelo mercado como ‘morte por inanição’, seria formado por contingenciamentos e bloqueios de verbas (como aquele, de R$ 31 bilhões, do ano passado), que acarretam cortes de investimentos e do custeio de serviços em áreas essenciais.
A probabilidade de
um shutdown brasileiro cresce, uma vez que o orçamento federal é engessado, por
conta do aumento constante de gastos com Previdência Social, pisos de
Saúde/Educação, além de programas sociais, como Benefício de Prestação
Continuada (BPC). Sem o sempre adiado corte de gastos – pois os mecanismos de
aumento da arrecadação já chegaram ao seu limite – a máquina pública pode
‘emperrar’ por falta de recursos, para pagamento de contas básicas (água, luz e
sistemas diversos), sem contar a incapacidade de realizar novos
investimentos.
Desajuste – Outro fator que desperta grande preocupação no mercado, o grave desajuste fiscal (descompasso flagrante entre receitas e despesas), segundo analistas, deveria ser alvo do que chamaram ‘terapia de choque’ e reformas estruturais, pois a estimativa é de que a dívida pública federal deverá superar, em 2030, a 100% do PIB (aproximadamente R$ 12 trilhões), nos estertores do próximo governo, tal a voracidade perdulária da gestão petista, em busca de mais um mandato, no final do ano.
Explicitando, ainda
mais, a marcha da insensatez fiscal palaciana, o diretor da Instituição Fiscal
Independente (IFI), Marcus Pestana – durante audiência da Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE) do Senado, recorreu à uma metáfora explosiva: “Imaginem as
Forças Armadas sem munição, o Ibama e a Polícia Federal sem gasolina,
o PAC zerado e os ministérios sem pagar a conta de energia? Parece caricatura,
mas é para lá que caminhamos”.
Metáfora – Dados da atual gestão confirmam o temor de Pestana. Mesmo exibindo uma das cargas tributárias mais elevadas do globo (33% do PIB), o país apresenta, de forma recorrente, déficit fiscais e dívida em expansão. Prova disso é que, em menos de 11 anos (de novembro de 2014 a outubro de 2025), a dívida pública federal saltou de 56,1% do PIB para 78,6% do PIB e continua crescendo, segundo o Banco Central.
Ao mesmo tempo, nos
33 meses do atual mandato, contados até setembro de 2024, somente sete
registraram superávit primário. Nesse contexto, as chamadas despesas
obrigatórias já consomem 90% do orçamento federal, com tendência de expansão, devido
ao envelhecimento da população e pela indexação de benefícios previdenciários e
assistenciais ao salário mínimo.
Efeitos de um ‘shutdown’ no
Brasil
·
Paralisia de serviços públicos: Interrupção ou precariedade em serviços que dependem de despesas
discricionárias, como emissão de passaportes, fiscalização ambiental,
manutenção de estradas e funcionamento de universidades e institutos federais.
·
Impacto em programas sociais: Riscos de atrasos ou falta de recursos para o pagamento de bolsas
de estudo, subsídios agrícolas (como o seguro rural) e outros auxílios não
obrigatórios por lei.
·
Interrupção de obras e investimentos: Paralisação de obras de infraestrutura e saneamento, o que pode
levar a multas para gestores públicos e prejuízos econômicos de longo prazo.
·
Crise de credibilidade fiscal: O descumprimento de metas e a percepção de falta de
sustentabilidade da dívida pública (que atingiu 78,1% do PIB em 2025) elevam a
incerteza no mercado, pressionando a inflação e afastando investidores.
·
Prejuízo à coleta de dados: Assim como ocorre
nos EUA, agências governamentais poderiam suspender a divulgação de dados
econômicos essenciais para o planejamento de empresas e do próprio Banco
Central.

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