Economia brasileira é refém de
agenda eleitoral
Dívida pública se aproxima
de 70% do PIB e ‘amarra’ crescimento
Marcello Sigwalt
Ano novo, ano velho. Essa é a
conclusão desanimadora, que pode ser tirada, após uma rápida observação dos efeitos
‘funestos’ da dívida pública federal trilionária elevada (que beira os R$ 8,4 trilhões,
70% do PIB, e parece imparável, ao menos até o pleito eleitoral deste ano)
sobre o quadro macroeconômico nacional. Até outubro último, o déficit nominal
acumulado em 12 meses atingiu R$ 1 trilhão.
Nesse leque de ‘maldades’, ganham
destaque duas ‘sequelas’ substanciais sobre a atividade produtiva. A primeira,
o comprometimento do investimento público e redução do consumo privado, com
impactos negativos no crescimento econômico sustentável a curto e médio prazos.
A outra, não menos perversa, seria causada pela manutenção dos juros básicos (Selic
a 15% ao ano, que corresponde a uma taxa real de 9% ao ano, a segunda maior do planeta),
que força a elevação do custo do crédito para empresas e famílias.
Mas a face perniciosa do aperto
monetário não se restringe ao consumo familiar, se estendendo ao desestímulo
óbvio do investimento privado (Crowding-out), face ao encarecimento do custo da
tomada de empréstimos, que favorece as aplicações em títulos públicos, opção considerada
mais atrativa e segura. Como resultado, é enfraquecida a capacidade de
crescimento da economia.
Do ponto de vista público, há o
comprometimento do orçamento público, em que parcela crescente deste já está ‘carimbada’
para o pagamento de juros e rolagem da dívida (refinanciamento). Tal amarra,
portanto, comprime a margem de manobra de investimentos em infraestrutura,
saúde, educação e outros programas sociais.
A persistência de um estado de desequilíbrio
das contas públicas, agravado pela incessante pressão inflacionária, reforça a
percepção de risco fiscal, à medida que sobe a incerteza de investidores quanto
à capacidade de pagamento do governo, além de pressionar o dólar e a inflação.
Como a agenda eleitoral domina
todas as ações da república tupiniquim, mais uma vez, fica para depois a
necessidade de reforma estruturais, em especial, nas áreas administrativa e
tributária, visando o equilíbrio entre receitas e despesas da ‘Viúva’.
No viés estratégico, a redução
do crescimento potencial acarreta a escassez de investimento público e privado
em infraestrutura, tecnologia e capital humano.
Na contramão da ‘gastança federal’,
especialistas apontam a urgência de adoção de um ajuste fiscal ‘severo’, com
vista à estabilização da dívida pública, mediante o uso de medidas de
austeridade, que podem incluir cortes de gastos ou aumento de impostos, façanha
de viabilidade política muito duvidosa, sobretudo em período pré-eleitoral.
No front externo, a deterioração
das condições econômicas aumenta a possibilidade de rebaixamento da nota de crédito
do país por parte das agências de classificação de risco internacionais. Caso
isso se concretize, a tendência é o encarecimento do custo de captação de
recursos no exterior e o posterior afastamento de investidores.
Levando em conta o somatório de
variáveis negativas, nem mesmo o fato de as reservas internacionais totalizarem
hoje US$ 357 bilhões representam garantia, diante de um cenário externo
dominado pela volatilidade, conflitos geopolíticos, reconfiguração de mercados,
com base em fortalecimento de protecionismos regionais.

Economia à espera de alforria
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