Corrida
tecnológica ‘gerada’ por IA ameaça espécie humana
Criação acelerada de
data centers põe em risco oferta hídrica e amplia poluição
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Marcello
Sigwalt
Consumo massivo de água e energia; aumento das emissões de gases
de efeito estufa e crescimento exponencial de lixo eletrônico. Esses são alguns
dos efeitos catastróficos imediatos, num primeiro momento, em decorrência da ‘guerra
dos data centers’, que remete à acirrada ‘corrida global pela liderança da
Inteligência Artificial (IA) generativa e computação em nuvem.
Destrinchando melhor cada um dos fatores deletérios para a
humanidade, começamos com o consumo massivo de água e energia, que caracteriza
data centers de ‘hiperescala’, que demandam volumes imensos de água para
refrigeração e colocam em risco o abastecimento das regiões onde se instalam. Especialistas
preveem que, até 2035, essas grandes estruturas consumam eletricidade do porte
de países inteiros.
Como ‘efeito dominó’, a expansão do consumo energético
potencializa o crescimento das emissões dos gases de efeito estufa, face à
dependência de combustíveis fósseis, em detrimento da alternativa sustentável das
energias renováveis. Em terceiro lugar, a escalada de produção de lixo
eletrônico vem a reboque do movimento dinâmico de atualização de equipamentos
para IA.
Esse cenário sombrio tem como ‘protagonistas’ os chamados
‘gigantes tecnológicos’, como Microsoft, Google (Alphabet), Amazon (AWS) e
Oracle. Enquanto o primeiro planeja realizar investimentos pesados em data
centers de IA, o último pretende reforçar a posição de ‘player relevante’ na
nuvem.
Atestado de que o novo front de vanguarda tecnológica veio para
ficar é a estimativa feita pela agência de classificação de risco Moody’s, de
uma movimentação de US$ 3 trilhões, somente nos próximos cinco anos, deste
mercado.
Outro dado relevante disparado pela agência diz respeito ao ‘salto’
de 20% no consumo global de eletricidade pelos data centers, sob o impulso da
IA e da computação em nuvem, como destaque para o fato de que parcela
majoritária dessa capacidade já estaria pré-alugada para hiperescaladores. Isso
reduz a possibilidade de vacância, mas aumenta a tendência de concentração de
crédito por parte de poucas contrapartes.
Como reflexo do movimento frenético dos data centers (que eleva
a demanda por espaço na corrida da IA), inquilinos corporativos de grande porte
estão assumindo riscos, em lugar de seus desenvolvedores, no que toca a
incertezas na entrega de energia e de serviços públicos essenciais, visando agilizar
a entrada em operação de novas instalações. Exemplo disso é a redução, a
recordes mínimos, das taxas de vacância, entre 1,6% e 2,3% na América do Norte.
Já nos Estados Unidos, especificamente, cresce a pressão, por parte
das empresas de energia, para que as BigTechs paguem mais pelo uso do insumo
essencial, o que pode retardar o avanço do segmento.
No que toca à questão de mercado, também cabe destaque outra
pressão, a exercida pelo Google, no desenvolvimento de chips (TPUs), que ameaça
a liderança da Nvidia e seus chips de IA. No centro da concorrência, figura a
eficiência de resfriamento e a construção de ‘mega-campuses’ (com capacidade
superior a 1 GW).
Participação
brasileira dispõe de pouca informação
No caso brasileiro, o país está disposto a aplicar cerca de R$
90 bilhões em lacônicos ‘projetos no setor’, em que os data centers poderão
dobrar de tamanho no médio prazo (sob o impulso da energia renovável, em
especial, das matrizes eólica e solar), mediante o maior emprego de cabos
submarinos, computação em nuvem e IA.
Como no resto do planeta, o atendimento à demanda crescente por capacidade
computacional vai exigir do Brasil uma infraestrutura ‘robusta’ para
processamento e armazenamento de dados. Embora disponha de vantagens
competitivas substanciais, como uma matriz energética com perfil
predominantemente renovável, Pindorama terá de superar uma ‘miríade’ de
desafios, nas áreas regulatória, imobiliária, tributária e de conectividade
para, então, ter condições de se consolidar como hub regional de data centers.
A conclusão aqui é clara e precisa: mais do que oportunidade de
investimento, o avanço tupiniquim no campo de data centers representa um
componente estratégico para sua inserção na economia digital e, sobretudo, no
ecossistema emergente de IA.

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