Aperto monetário assegura ‘gastança’, mas pode topar em ‘estagflação’

Ao extirpar avanço dos serviços, juros ‘estratosféricos’ põem economia em encruzilhada



Marcello Sigwalt

Ponto de inflexão que marca o fim da dinâmica econômica, o volume dos serviços do país amargou retração de 0,1% em novembro último, ante o mês anterior, interrompendo a sequência de nove avanços consecutivos, quando acumulou expansão de 3,8%, aponta estudo recente divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).  

Mas mais relevante do que o percentual negativo em si, é atestar que a medida contracíclica (no jargão econômico) – manutenção do patamar ‘exorbitante’ da taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano – empreendida pelo Banco Central (BC), em subserviência explícita aos ditames do Planalto, ‘mata’ a capacidade de expansão espontânea das forças produtivas da Nação, sob o pretexto enganoso de ‘combater a inflação’, na verdade, alimentada pela gastança federal, que visa arregimentar ‘corações, mentes e votos’ para o pleito presidencial que se aproxima, no final do ano.

No entanto, enquanto a premissa republicana de equilíbrio e responsabilidade fiscais é ‘jogada às calendas’, o desequilíbrio entre receitas e despesas do Planalto é financiado por outro tipo de arrocho, o tributário, cuja carga já supera 34% do PIB (Produto Interno Bruto). O resultado prático de tal descalabro é a previsão de analistas de que a dívida pública federal atinja 100% do PIB em quatro anos, ou, talvez, antes disso. Mais grave, porém, que tal perspectiva adversa, é saber que a política perdulária pode descambar, logo ali, em um ‘estado de estagflação’, conjugação perversa entre estagnação econômica e inflação alta e resiliente, de mais difícil solução. 

Uma vez assegurada a quarta recondução do atual mandatário, no final do ano corrente, o cidadão-contribuinte, na avaliação da IA (Inteligência Artificial), poderá ser ‘presenteado’ com um amplo pacote de ‘maldades’, cuja duração ainda não foi precificada pelo mercado, começando por tais efeitos:   

Redução do consumo: com juros mais altos, o crédito (empréstimos, financiamentos e cartões de crédito) fica mais caro para o consumidor. Isso desestimula a demanda por diversos serviços, desde viagens e lazer até serviços financeiros e imobiliários.

Crédito mais caro para empresas: o custo elevado do crédito afeta as empresas do setor de serviços que dependem de financiamento para capital de giro, expansão ou investimentos em novos equipamentos e tecnologia. Isso pode comprometer o fluxo de caixa e a capacidade de crescimento do negócio.

Desestímulo ao investimento: o cenário de juros altos torna os investimentos em renda fixa mais atrativos em comparação com investimentos produtivos no setor real da economia, como o de serviços, desviando capital que poderia ser usado para ampliar a atividade econômica.

Impacto no emprego e renda: a desaceleração da atividade econômica e a redução nos investimentos das empresas do setor de serviços podem levar a um desaquecimento do mercado de trabalho, com menor geração de empregos. Isso, por sua vez, reforça a queda no consumo, criando um ciclo de retração. 

Incerteza e planejamento: a instabilidade na trajetória da Selic gera incerteza para o planejamento estratégico das empresas, que ficam mais cautelosas em assumir riscos ou fazer planos de longo prazo. 

Para superação do ataque monetário, em curso, à vocação brasileira pelo desenvolvimento, será necessário implantar uma política econômica, de fato, comprometida com o futuro e baseada na seriedade de tratamento das contas públicas, a fim de garantir que o Estado brasileiro, hoje focado no próprio ‘umbigo eleitoreiro’, jamais volte a se dissociar das necessidades sociais e econômicas daqueles que garantem seus privilégios, mordomias, típicas de marajás do Oriente. Dignidade fiscal já!

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