Ingresso recorde de
capital estrangeiro pode ser revertido
Desajuste fiscal
deve induzir à ‘quebra' de confiança de investidor externo no país
Amplamente celebrado pelo
mercado, o ingresso recorde de capital estrangeiro no país em dois anos –
superior a R$ 27 bilhões – além da motivação óbvia da remuneração proporcionada
pela estratosférica taxa básica de juros (Selic), hoje em 15% ao ano, esconde
uma perspectiva de reversão, passível de ocorrer a qualquer momento.
‘Vapt vupt’ – Isso
porque a persistência do desajuste fiscal – decorrente de um programa
assistencialista federal inconfessável para fins eleitoreiros em 2026 – poderá
deixar a bolsa de valores tupiniquim, com a mesma rapidez que aqui aportou. Basta lembrar que, após realizar aportes de R$
44,8 bilhões, em 2023, a debandada externa atingiu R$ 32,1 bilhões da B3, no
ano seguinte.
Eleição na mira – Nem
mesmo a tendência de queda mais lenta da Selic, ante a similar nos EUA – hoje
entre 3,75% a 4% ao ano, pilotada pelo Fed (Federal Reserve), de olho na também
renitente inflação ianque elevada – é garantia de permanência do capital
estrangeiro em Pindorama, atraído pelo ‘barateamento’ da bolsa de valores
brasileira, em comparação com outras no exterior. Políticas monetárias à parte,
a questão eleitoral, no ano que vem, continua a ser a variável mais importante,
para efeito de investimento estrangeiro no mercado verde-amarelo.
‘Cenário fantasioso’ –
De todo modo, a percepção prevalente entre analistas é de que há uma ‘relação
complexa e bidirecional’ entre capital estrangeiro e desequilíbrio fiscal, pois
o fluxo externo excessivo (de caráter especulativo) tem a faculdade de criar
uma atmosfera ou impressão de falsa normalidade econômica, mascarando mazelas
fiscais com repercussões não dimensionáveis, a exemplo de gastos públicos
crescentes e dívida pública sem qualquer controle. Reforça tal cenário
‘fantasioso’ o descompromisso explícito do Planalto com o equilíbrio das contas
públicas, o que joga, literalmente, ‘às favas’, qualquer princípio de
responsabilidade fiscal.
Impacto da IA – Outra
variável de incerteza para o investidor se refere ao impacto econômico do uso
massivo da Inteligência Artificial (IA), em especial, no período entre outubro
e o início de novembro. Na avaliação do estrategista da Potenza, Bruno Takeo, o
investidor externo tem manifestado ‘receio’ de tomar risco, diante de dúvidas
sobre IA: “Começaram a surgir questionamentos quanto aos rendimentos, e alguns
investimentos pararam de ser direcionados para emergentes, enquanto o mercado
aguardava para verificar se havia algum problema no setor.”
Sazonal – Fazendo
coro à imprevisibilidade do momento, o especialista em mercado financeiro do
grupo Axia, Felpe Sant’Anna entende que a entrada de capital estrangeiro no
mercado brasilis poderá ser sazonal. “Em dezembro costuma ter um movimento de
saída em razão do fechamento do caixa das empresas, remessas externas,
pagamento de bônus e dividendos”. Embora admita que a migração de recursos de
fora pode se elevar, caso o Fed decida cortar, novamente, o juro nos EUA,
Sant’Anna ressalva: “Tenho dúvidas se esse fluxo vai se manter em 2026, por
conta das eleições”.

Capital estrangeiro não tem pátria, nem compromisso
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