Ingresso recorde de capital estrangeiro pode ser revertido

Desajuste fiscal deve induzir à ‘quebra' de confiança de investidor externo no país


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Marcello Sigwalt 

Amplamente celebrado pelo mercado, o ingresso recorde de capital estrangeiro no país em dois anos – superior a R$ 27 bilhões – além da motivação óbvia da remuneração proporcionada pela estratosférica taxa básica de juros (Selic), hoje em 15% ao ano, esconde uma perspectiva de reversão, passível de ocorrer a qualquer momento.

‘Vapt vupt’ – Isso porque a persistência do desajuste fiscal – decorrente de um programa assistencialista federal inconfessável para fins eleitoreiros em 2026 – poderá deixar a bolsa de valores tupiniquim, com a mesma rapidez que aqui aportou.  Basta lembrar que, após realizar aportes de R$ 44,8 bilhões, em 2023, a debandada externa atingiu R$ 32,1 bilhões da B3, no ano seguinte.

Eleição na mira – Nem mesmo a tendência de queda mais lenta da Selic, ante a similar nos EUA – hoje entre 3,75% a 4% ao ano, pilotada pelo Fed (Federal Reserve), de olho na também renitente inflação ianque elevada – é garantia de permanência do capital estrangeiro em Pindorama, atraído pelo ‘barateamento’ da bolsa de valores brasileira, em comparação com outras no exterior. Políticas monetárias à parte, a questão eleitoral, no ano que vem, continua a ser a variável mais importante, para efeito de investimento estrangeiro no mercado verde-amarelo.

‘Cenário fantasioso’ – De todo modo, a percepção prevalente entre analistas é de que há uma ‘relação complexa e bidirecional’ entre capital estrangeiro e desequilíbrio fiscal, pois o fluxo externo excessivo (de caráter especulativo) tem a faculdade de criar uma atmosfera ou impressão de falsa normalidade econômica, mascarando mazelas fiscais com repercussões não dimensionáveis, a exemplo de gastos públicos crescentes e dívida pública sem qualquer controle. Reforça tal cenário ‘fantasioso’ o descompromisso explícito do Planalto com o equilíbrio das contas públicas, o que joga, literalmente, ‘às favas’, qualquer princípio de responsabilidade fiscal.

Impacto da IA – Outra variável de incerteza para o investidor se refere ao impacto econômico do uso massivo da Inteligência Artificial (IA), em especial, no período entre outubro e o início de novembro. Na avaliação do estrategista da Potenza, Bruno Takeo, o investidor externo tem manifestado ‘receio’ de tomar risco, diante de dúvidas sobre IA: “Começaram a surgir questionamentos quanto aos rendimentos, e alguns investimentos pararam de ser direcionados para emergentes, enquanto o mercado aguardava para verificar se havia algum problema no setor.”

Sazonal – Fazendo coro à imprevisibilidade do momento, o especialista em mercado financeiro do grupo Axia, Felpe Sant’Anna entende que a entrada de capital estrangeiro no mercado brasilis poderá ser sazonal. “Em dezembro costuma ter um movimento de saída em razão do fechamento do caixa das empresas, remessas externas, pagamento de bônus e dividendos”. Embora admita que a migração de recursos de fora pode se elevar, caso o Fed decida cortar, novamente, o juro nos EUA, Sant’Anna ressalva: “Tenho dúvidas se esse fluxo vai se manter em 2026, por conta das eleições”.


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