Agro enfrenta número recorde de pedidos de recuperação judicial
Aperto monetário e
restrição de crédito comprometem setor primário
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Esteio e carro-chefe da economia brasileira, ao menos, nos últimos 20 anos – graças ao modelo ‘vencedor’, que associou avanço tecnológico com eficiência e produtividade imbatíveis mundialmente – o Agro dá sinais claros de esgotamento, diante de uma gestão econômica federal desastrosa que vem comprometendo sua rentabilidade e perspectivas de desenvolvimento. Pior que isso: a situação deve se agravar para o corrente quarto e último trimestre do ano (4T25).
Recorde da série – É o que apontam dados
do Monitor RGF, elaborados pela consultoria RGF&Associados, ao calcular em
67,8% a expansão do número de pedidos de recuperação judicial (RJ) de empresas do
setor no terceiro trimestre do ano (3T25), em relação a igual período de 2024,
correspondendo ao maior aumento de toda a série histórica.
Último recurso – O entendimento de especialistas é de que a RJ constitui o
‘último recurso’ para a reorganização de passivos, a tempo de evitar rupturas
contratuais.
Outra
conclusão relevante do estudo é que o Agro é líder na quantidade de
companhias que encaram essa dificuldade, pois em cada 1 mil delas, 12,63 se encontravam em tal condição
(pelo indicador IRJ), praticamente o dobro do exibido pela indústria (6,49) e
bem acima do apresentado pela média nacional, que não passou de 2,04.
Características – Na avaliação do sócio
da RGF, Rodrigo Gallegos, “esse patamar elevado é formado por quatro características
estruturais do setor: alto capital intensivo, com dívidas superiores às de
outros setores; exposição a múltiplos choques simultâneos, como preço, clima e
câmbio; estrutura de financiamento frágil, que financia necessidades de longo
prazo, por meio de dívidas curtas; e falta de profissionalização entre grupos familiares”.
Endividamento – O executivo observa,
porém, que tal tendência regressiva, na verdade, se acentua desde a década passada, quando
produtores e agroindústrias, ante margens elevadas e exportações em alta, buscaram
ajustar suas estruturas em favor de uma rota de crescimento. Tal trajetória,
contudo, acabou enfrentando, nesse período, problemas, tanto climáticos, econômicos
e cambiais, o que descambou em nível elevado de endividamento e de inadimplência. Reforçam essa perspectiva nociva a persistência –
decorrente do desajuste fiscal federal de cunho eleitoral, bem entendido – dos
juros básicos (Selic) em patamar extremamente elevado (15% ao ano) e da restrição
de crédito.
Desde
2023, os agroindustriais enfrentam, com resiliência, um cenário de custos
elevados, margens pressionadas, liquidez reduzida e impactos climáticos
acumulados, especialmente nas regiões mais dependentes do crédito rural.
Renegociações sucessivas – Ademais, do ponto de vista
macroeconômico, não faltam fatores que ‘jogam contra’ o último bastião de excelência
econômica tupiniquim, marcado, nos últimos dois anos, por
renegociações sucessivas de dívidas, frustração de safras e expansão da
inadimplência, sobretudo, em operações estruturadas.
Só em 2027 – A despeito de alguns prognósticos
‘otimistas’ quanto a uma eventual recuperação da atividade em 2026, predomina, entre analistas, a
expectativa de que uma ‘melhora’ só deverá ocorrer,
de fato, em 2027. Até lá, persiste a preocupação de credores, tradings, instituições
financeiras, fornecedores e dos próprio empresário rural, em torno de questões objetivas, como financiamento da safra e entrega futura
de grãos. Em regiões com dependência direta da produção agrícola, a escalada de
pedidos de RJ impacta, ao mesmo tempo, todas as áreas econômicas, do comércio ao
transporte, da armazenagem aos serviços a ela associados.
Sem reação – Dando o tom do drama
vivido pelo setor primário da economia, o especialista em RJ e reestruturação
empresarial, Rafael Brasil, acentua que “o recorde de recuperações judiciais no
agro não é um evento isolado, mas resulta de de anos de margens comprimidas,
aumento do endividamento e sucessivos choques climáticos. Quando esses fatores
se acumulam sem um ambiente de crédito adequado, o produtor rural perde
capacidade de reação. A recuperação judicial, nesse cenário, torna-se um
instrumento de preservação [não de ruptura], permitindo reorganizar dívidas e
manter a atividade produtiva viva.”
Medidas efetivas – Diante da falta de perspectiva de ‘aumento de preços das commodities’ ou de ‘barateamento dos
insumos agrícolas’, o sócio da consultoria MacroSector, economista Fábio Silveira
condiciona a superação da atual ‘turbulência’ do setor a medidas federais ‘mais
efetivas’, no que toca à liberação de subsídios, a exemplo do que praticam seus
concorrentes diretos, nos Estados Unidos. Por enquanto, essa diretriz se restringe a dívidas de produtores afetados pelas mudanças climáticas.
Mais rigor – Do ponto de vista corporativo,
a sócia da Moraes Junior Advogados, Cybelle Guedes Campos recomenda que produtores
rurais ou empresas sujeitas à recuperação judicial devem adotar ‘práticas de
gestão mais rigorosas’, o que inclui controle de preços e de custos e
planejamento financeiro de longo prazo.

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