'Bolha’ de IA pode colocar em risco economia mundial


Rápida valorização de ações de big techs

não contaria com fundamentos sólidos


                       Mariana Amaro - Canva

Marcello Sigwalt

Quem esquece o passado, está condenado a repeti-lo. A máxima secular, sempre atual, se aplica perfeitamente ao contexto de ‘disseminação’ acelerada da IA (Inteligência Artificial) nos negócios, a ponto de criar uma ‘bolha’ no preço de ações baseadas nessa tecnologia, o que pode implodir e desestruturar a economia mundial.

Quem adverte para esse risco é nada menos do que o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles: “Há muita gente gastando muito para sustentar negócios que não se sabe se dará retorno”.

Potencial de danos – Ao abordar, em artigo recente no Estadão, as ‘lições do passado que ajudam a lidar com os riscos de uma nova bolha’, Meirelles admite “que crescem as preocupações, entre analistas e na imprensa especializada, quanto ao potencial de danos do uso indiscriminado da IA”.

Empolgação exagerada “Quando o assunto bolha surge no mercado, é momento de ter cuidado. Bolhas se formam quando há uma empolgação exagerada com um ativo, que causa aumento irreal no seu valor. É uma corrida insensata, que produz preços insustentáveis”, adverte o experiente ex-ministro, artífice maior da expansão econômica da gestão petista, no período de 2016-2018, no embalo da forte valorização das commodities tupiniquins, no mercado externo de então.

‘Bolha traumática’ Neste aspecto, Meirelles ressalta que “a mais traumática das bolhas na história recente foi protagonizada pelos ativos subprime, maiores responsáveis pela eclosão da crise mundial de 2008, talvez a mais destrutiva da história, cujos reflexos subsistem até hoje.

Alavancagem – Como exemplo do poder devastador que a ‘alavancagem’ (no jargão de mercado) o  longevo ex-xerife do  BC (2003-2010)– também ex-presidente mundial do BankBoston lembra do relato de uma motorista brasileira em Nova York, que havia adquirido (a juros baixos e sem exigências dos bancos), duas residências naquele país, em que o aluguel de uma pagava pela prestação da outra. Deu no que deu.

Sem limites – Em que pese o caráter imprevisível das implicações econômicas e sociais da aplicação da IA, pois “não enxergamos seus limites e potencial para a economia”, o ex-ministro destaca “os imensos investimentos de empresas de tecnologia em projetos de inteligência artificial, o que explica, também, a empolgação dos investidores, que tornaram essas empresas tão valorizadas”.

Gastos excessivos – Coerente com um fenômeno traduzido como ‘espírito de rebanho’, Meirelles revela que, na semana passada, o jornal Financial Times – ao tomar com referência consulta a gestores feita pelo Bank of America – concluiu que as empresas não se detêm em exceder gastos no desenvolvimento de novos produtos baseados em IA, em que muitas delas chegaram a emitir mais de US$ 200 bilhões em títulos de dívida este ano, tão somente para financiar projetos de Inteligência Artificial.

Endividamento crescente – A conclusão imediata do ex-ministro é de que “há muita gente gastando muito e se endividando para sustentar negócios que não se sabe quando darão retorno. Neste mês, o Nasdaq Composite, índice da Bolsa americana de empresas de tecnologia, caiu 6% até sexta-feira. É um sinal de medo dos investidores, que merece atenção”.

Investimento massivos – Segundo definição cunhada pela própria IA, em consulta espontânea, a ‘valorização de empresas e ativos associados à IA decorre mais de um estado de ‘entusiasmo e especulação [hype] do que por fundamentos sólidos, a exemplo de bolhas anteriores, como a da Internet (ponto.com)’. É o que tem se verificado com a alta acelerada de ações de gigantes da tecnologia, como Nvidia, OpenAI e Palantir), com base em investimentos massivos em infraestrutura (chips, data centers)’. Aqui o problema central é o ‘descompasso entre o que se promete e o que se entrega, gerando receios de um estouro e colapso no mercado’.

Fatores que podem levar ao estouro da bolha da IA:  

·       Supervalorização de empresas: Ações de gigantes de tecnologia e startups de IA são negociadas a múltiplos altíssimos, com expectativas futuras que podem estar distantes da realidade.

·         Investimento massivo em infraestrutura: Bilhões são investidos em data centers e hardware (GPUs), uma aposta arriscada na demanda futura.

·        Hype e Contratos Cruzados: A euforia do mercado atrai investimentos em projetos sem base sólida, e há um ciclo de contratos entre grandes players (OpenAI, Nvidia, Oracle) que sustenta o valor.

·       Descompasso entre promessa e entrega: Os gastos com IA aumentam (custos de depreciação), mas o retorno claro para os investidores ainda não se concretizou totalmente para todas as empresas.

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