Atraso em adaptação a novas tecnologias pode ‘engolir’ indústria

Produtividade do trabalho industrial ‘despencou’ 23% em 30 anos


                                                                                    Crédito: Certi


Marcello Sigwalt

Que reindustrialização que nada, mas uma forte ‘marcha à ré’. É o que descreveu a produtividade do trabalho industrial, ao despencar 23% nos últimos 30 anos – passando de R$ 58,8 (valor adicionado dividido por hora trabalhada), em 1995, para R$ 45,3, em 2024, a preços reais de 2021  apontam dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV). 

‘Comendo poeira’ – A ‘queda livre’ do indicador pode ser medida pelo recuo, de 78% acima da média da economia, para apenas 9% dessa mesma média, no comparativo descrito acima. Em contraste, nesse mesmo período, o valor da agropecuária saltou de R$ 7,5 para R$ 40,6. A derrocada fabril é constatável pelo atual patamar da indústria de transformação, o mesmo de há 16 anos e 16,4% abaixo do recorde, apresentado em maio de 2011.

Desafios – Para reverter tal processo declinante, o entendimento de especialistas é de que a indústria terá de superar desafios, como a incorporação de novas tecnologias digitais, enquanto se prepara para o acirramento da concorrência internacional, tendo em vista a conquista de novos mercados.

Interação – Atualmente, o centro dos debates sobre o futuro da indústria gira em torno da ‘interação perfeita’ entre tecnologias digitais e automação, de modo a viabilizar sistemas autônomos capazes de ‘antecipar’ necessidades empresariais, avalia o diretor-executivo da empresa de automação industrial Rockwell Automation, Blake Moret, para quem a jornada industrial 'caminha da automação à autonomia'.

Paradigma – “Trata-se de adaptação e aprendizado, uma vez que os sistemas podem ter um desempenho ainda melhor, ao longo da vida e este é um paradigma diferente do que aquele no qual crescemos. Sistemas que aprendem e tecnologias que nos permitem aprender. Isso será fundamental para distinguir os vencedores dos perdedores nos próximos anos”, condiciona Moret.

Defasagem – Em que pese a disposição de companhias brasileiras de investir em novas tecnologias, como Inteligência Artificial (IA); Internet das Coisas (IoT); robótica avançada e gêmeos digitais, entre outras, o fato incontestável é que grande parte delas tem perfil pouco produtivo, mediante processos e produtos mais defasados, admite a coordenadora do Boletim Macro Ibre, Silvia Matos, que antevê dificuldades adicionais para este segmento, numa época marcada pelo rápido avanço da inovação.

Abaixo do patamar – Embora considere que o setor industrial se encontra na ‘direção correta’, o diretor-executivo do Iedi (Instituto para o Estudo e o Desenvolvimento Industrial), Rafael Cagnin, ressalva que este se mantém em nível incompatível com o patamar mundial. Mas há movimentos no sentido de encurtar essa distância, conforme aponta a Pesquisa de Inovação (Pintec) 2024 – elaborada de forma conjunta pelo IBGE, ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e pela UFRJ – segundo a qual, a adoção de inteligência artificial pelas indústrias nacionais mais do que dobrou entre 2022 (16,9% do total) e 2024 (41,9%). Segundo esse trabalho, a participação de empresas que utilizam as seis tecnologias investigadas pelo IBGE (análise de big data; computação em nuvem, inteligência artificial, internet das coisas, manufatura aditiva e robótica) passou de 3,7%, em 2022, para 5%, no ano passado.

Sem apoio – Já o superintendente de projetos de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Bork sustenta que grandes organizações industriais estão ‘se preparando’ para ascender na escala de produtividade e eficiência, seguida de maior disseminação tecnológica por toda a cadeia produtiva, mas ele adverte que essa tendência requer suporte e embute riscos. “Os industriais estão sob pressão [do mercado] para adquirir novas tecnologias, mas se não houver o apoio de políticas públicas que fortaleçam a indústria, vamos ser engolidos”. 

Diferencial – Como endosso às preocupações de Bork, a economista do Ibre, Silvia Matos destaca que o principal diferencial da indústria avançada no exterior é a formação de capital humano, sustentada pelo setor público, a exemplo da Alemanha, o que também ocorre em 'ilhas de excelência', como a Embraer. “A indústria é intensiva em capital humano e tecnologia para garantir o melhor nível de inovação. E o setor público é importante nesses quesitos, senão, só as grandes inovam. Centros tecnológicos permitem a geração de novas ideias”, conclui Silvia.


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