Feliz Ano Novo: parlamentar
ganha um salário mínimo por dia
Trabalhador que sustenta máquina pública receberá gorjeta de R$
100
Marcello Sigwalt
Um
escárnio institucionalizado que assalta os cofres da Nação, todos os anos, sem
falta. Assim pode ser classificado o contraste ‘vergonhoso’ entre as
remunerações dos ‘nababos’ (togados ou não) e do super tributado
contribuinte-eleitor, em que os primeiros podem auferir rendimentos anuais que podem
superar R$ 24 milhões (caso dos ‘distintos’ deputados e senadores), e os
segundos, que amargam um ‘aumento’ (pasmem) de R$ 100 do salário mínimo, que
passa a valer ‘ridículos’ R$ 1.620,99 em janeiro próximo. Em outra constatação,
não menos repulsiva, a conclusão imediata é de que um parlamentar ganha por dia
o que um trabalhador honesto leva 30 dias para receber.
Descompromisso – O descompromisso com
a eficiência e moralidade públicas está patenteado pela característica tipicamente
tupiniquim: a autoconcessão de reajustes, automaticamente chancelados por uma
‘generosa’, ‘perdulária por natureza’ e
corporativa Constituição de 1988. Rachadinhas à parte, cada parlamentar, dono
de uma verba de até R$ 106 mil mensais, tem a atribuição de contratar até 25
secretários. Haja imposto para custear uma insaciável e monstruosa máquina
pública!
Gastança – Quando consultada sobre
as implicações do custo crescente do setor público no médio prazo, ante à
‘marcha da gastança’, a IA (Inteligência Artificial) apontou o risco de
‘insustentabilidade orçamentária’ até 2027, com risco de paralisação
(shutdown), à semelhança ianque, devido à escassez de verbas para custeio.
Quimeras – Entre os fatores que
‘restringiriam’ a elevação mais significativa do mínimo, a IA aponta ‘limitações
fiscais e orçamentárias’; impacto ‘potencial’ na inflação e no emprego e indexação
de outros benefícios. A situação fica ainda mais complexa, por se tratar de ano
eleitoral.
Pretexto – A indiferença do
Executivo quanto a princípios de equilíbrio e responsabilidade fiscais acaba
encontrando o pretexto perfeito para eliminar qualquer recomposição do valor
real do mínimo – que deveria ser, hoje, de R$ 7,1 mil, segundo cálculos do
Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos) – sob o
argumento de que cada real de aumento do mínimo implicaria custo extra de
bilhões de reais ao Erário, no que diz respeito a gastos obrigatórios, como
benefícios previdenciários (aposentadorias e BPC), seguro-desemprego e abono
salarial.
Impacto – Referência para 59,9
milhões de pessoas no Brasil, segundo o Dieese, o valor do mínimo exerce impacto
direto sobre contratos de trabalho, benefícios previdenciários,
seguro-desemprego e programas como o BPC.
Tramoia – A tramoia do reajuste
para o ano que vem leva em conta a inflação de 4,4% em 12 meses até novembro de
2025 e um crescimento real de 2,5% no PIB de 2024, mesmo que este tenha alcançado
3,4%, uma vez que a regra vigente limita a correção real a fim de controlar o
aumento das despesas obrigatórias do governo.
Adestramento – A justificativa
tecnocrática não resiste a uma análise rasteira: não é por canetada, a qualquer
tempo, que o mínimo vai atingir um patamar satisfatório ao trabalhador, mas em
decorrência natural do crescimento econômico consistente – em um contexto de
equilíbrio fiscal – hoje duramente golpeado pelo aperto monetário empreendido
pelo Banco Central (BC), cuja política adestrada pelo Planalto ataca a inflação,
mediante a imposição de juros escorchantes. Seria o mesmo que matar o paciente
para eliminar a doença.

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