Doutor Agro - divulgação

Enquanto produtividade do Agro avança, indústria fica para trás

Marcello Sigwalt

Secular ‘motor’ da economia nacional, a indústria permaneceu estagnada nos últimos anos e sem qualquer possibilidade de reação, no curto ou no médio prazo. No entanto, no mesmo período, a agricultura exibiu e mantém uma expansão notável. Mas qual seria a explicação para tal contraste?

Um dos fatores determinantes estaria relacionado ao grau de abertura, em que, enquanto a primeira se manteve francamente protecionista, a segunda ‘pagou para ver’ na economia global, conquistando sucessivos mercados, não sem antes realizar pesados investimentos em modernização tecnológica e capacitação de mão de obra. Neste tópico, o diferencial tem nome: produtividade, cujos ganhos de escala permitiram conquistar preços competitivos, em ‘pé de igualdade’ com seus concorrentes externos.

‘Queda livre’ – O saldo concreto desse misto de influências é que a produtividade industrial desabou, ao passar, em 1995, de um nível 84% superior à média da economia, para não mais do que 12%, em 2023, se situando abaixo da expansão dos 12 setores das contas nacionais.

Para melhor entendimento de tal dicotomia, um dos ‘pais’ do Plano Real, o economista e doutor pela Universidade de Yale e ex-presidente do IBGE, BNDES e Anbid/Anbima, Edmar Bacha analisa a questão:

“Pode ser que parte da resposta esteja no mercado em que uma e outra miraram. A agricultura mirou o mercado internacional e hoje concorre com sucesso com as potências agrícolas mundiais. Para um país que exporta pouco como o Brasil, o mercado mundial é meio sem limites, portanto, oferece amplo escopo para a adoção de tecnologias de última geração e o desenvolvimento de tecnologias nativas. Oferece não só o escopo, mas também impõe a necessidade, pois se trata de competir mundialmente com os gigantes do setor”, observa.

“No próprio umbigo” – Ao mesmo tempo, Bacha dispara: “Já a indústria continua a mirar o próprio umbigo, ou seja, limita-se a vender com preços surreais seus produtos quase que exclusivamente para o mercado interno, e só consegue exportar alguma coisa com valor adicionado significativo para a Argentina. E sempre com muita proteção contra a entrada de produtos estrangeiros — basta ver a gritaria que a importação das “blusinhas” chinesas provocou entre os empresários”. Por fim, Bacha apresenta um diagnóstico duro, mas factível: “Limitada ao mercado interno, pequeno para os padrões mundiais, a indústria não alcança a escala necessária para a adoção de tecnologias de última geração, nem sofre pressão para o desenvolvimento de novas tecnologias. O pouco que ela produz, ela vende, porque o mercado é protegido”.

A favor do setor industrial pesam fatores, como: um processo de abertura comercial, que redundou em valorização cambial (alta do dólar), tornando os produtos nacionais menos competitivos externamente, sem contar a falta de planejamento adequado que protegesse setores estratégicos; o sempre presente ‘Custo Brasil’, conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, trabalhistas e econômicas que servem para ‘encarecer’ o ambiente de negócios; baixo investimento tecnológico na aquisição de máquinas e equipamentos; força de trabalho pouco qualificada e nível reduzido de difusão de inovações.  

“Desindustrialização” – Sejam quais forem as razões para o descalabro do setor secundário da economia, um breve raio x da questão conclui que este padece, a exemplo de outras economias emergentes, de um fenômeno denominado “desindustrialização precoce’, que é quando um país começa a perder sua base industrial, antes mesmo de alcançar alto nível de desenvolvimento econômico e tecnológico.

Por sua vez, economistas, classificados de ‘desenvolvimentistas’, acentuam que a sobrevalorização cambial, que ganhou impulso, sobretudo a partir de 2005 (a reboque do aperto monetário ‘monocrático’ pilotado pelo Banco Central)  que, aliada à política de desvalorização do dólar por parte dos bancos centrais dos países desenvolvidos, desencadeou a queda da participação, de 53% em 2008, para 35% em 2015, dos produtos manufaturados na pauta de exportações brasileira.

Ao comentar a tendência desindustrializante em marcha, Bacha afirma: “O que se observa desde o último quartel do século XX, e não somente no Brasil, é que muitos países tendem a se desindustrializar precocemente, ou seja, mais cedo do que antes. As explicações variam, mas em geral têm a ver com a importância que a terceirização adquiriu, mais o desenvolvimento de serviços de alta tecnologia, e a globalização que tendeu a concentrar as atividades manufatureiras na China”.

“Contraste” – Destoando da ‘inércia fabril’, de 2000 a 2019, a produtividade total dos fatores (PTF) do setor agrícola cresceu 3,2%, bem acima do patamar mundial, não superior a 1,7%, em igual período (dados da Embrapa), ao descrever ‘avanço consistente’, em decorrência de ganhos de eficiência, a despeito de flutuações do valor de produção, por conta de variações do clima e dos preços internacionais. Ainda assim, culturas centrais, como soja e milho mantêm projeções de crescimento no longo prazo.

Como tentativa recente de promover a reindustrialização, o governo federal lançou, em janeiro de 2024, o programa Nova Indústria Brasil (NIB), já com o ‘defeito congênito’ de repetir erros do passado, como a priorização da indústria naval e do refino de petróleo.

Para especialistas, a modernização de processos produtivos – o que inclui a tecnologia de informação e a Inteligência Artificial (IA) – contribui de forma decisiva para a produtividade industrial, mais do que no setor de serviços, uma vez que a tarefa de ‘robotizar’ uma fábrica é muito mais fácil do que fazer o mesmo nos setores de Educação e Saúde.

Completando o quadro, há consenso de que a virtual reindustrialização tupiniquim “não pode prescindir’ da estabilidade macroeconômica, de maior racionalidade tributária, da participação e de um banco de fomento, no caso do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), como também de um equilíbrio fiscal, forte na teoria, mas muito distante da realidade econômica.

 



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