Brasil, a ‘bola da vez’, caso estoure a ‘bolha’ das big techs
Marcello Sigwalt
Uma
alavancagem cibernética de consequências imprevisíveis. A previsão sombria foi patenteada,
recentemente, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e reforçada pelo Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês), que externaram a preocupação com o iminente ‘estouro da ‘bolha’ no mercado de ações nos Estados
Unidos, com potência para reeditar o crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929,
que redundou em recessão global e criou
as condições para a detonação da Segunda Guerra, a maior carnificina da história,
dez anos depois.
Como
argumento para tal temor, FMI e BoE apontaram a ‘exuberância’ (eufemismo para
exorbitância) de preços dos papéis das empresas de tecnologia, impulsionados pelas chamadas
sete magníficas (Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla), as big
techs, cujas ações hoje respondem por 80% das altas do
mercado acionário ianque, em que esse quinteto participaria com 30% do índice S&P 500, o maior patamar dos últimos 50 anos, aponta o mesmo BoE.
Para
ilustrar o tamanho desse mercado, basta dizer que os gastos globais do segmento de ligado
à IA (Inteligência Artificial), devem beirar US$ 1,5 trilhão (aproximadamente
de R$ 8,4 trilhões), até o fim de 2025. A título de comparação, no ano
passado, o PIB brasileiro somou R$ 11,7 trilhões.
Aqui e
em qualquer tempo, o ‘sinal amarelo’ foi acionado pela avalanche de recursos
alocados por investidores, em ações de big techs, lastreadas em expectativas de
fortes ganhos futuros, que podem não se materializar, levando em conta dois
fatores centrais: a possibilidade de as soluções baseadas em IA se revelarem
‘decepcionantes’ ou de adoção mais demorada do que se esperava. A segunda, a
perspectiva de desenvolvimento de produtos similares pela concorrente China,
mais baratos e eficientes.
Neste
último caso, vale como exemplo o lançamento do aplicado da 'IA DeepSeek' pelo
império mandarim, de custo infinitamente menor, ante seus concorrentes
estadunidenses. Igualmente perigosa para a eclosão da mencionada bolha é o fato
de as big techs buscarem, de forma recorrente, o mercado de dívida para
financiar seus respectivos projetos de expansão. Outra preocupação é realçada
pelo centenário Financial Times, segundo o qual, essas operações apresentam ‘natureza
muito complexa’, ou seja, de ‘pouca transparência’.
Diante
desse prognóstico temerário, cresce a percepção de que, em algum momento
futuro, será necessária uma ‘correção de rota’, ainda que de ‘forma abrupta’.
Na métrica da crise anunciada, o estrategista de investimentos Joost van
Leender observa: “Se pensarmos em bolhas, como um processo de cinco estágios,
provavelmente, estamos no estágio três”.
Dívida pública deve
atingir 79% do PIB neste ano
“Apertem os cintos. A incerteza é o novo
normal e está aqui para ficar”, pontua a diretora-gerente do FMI, Kristalina
Georgieva, ao admitir que o virtual ‘estouro da bolha’, num contexto de
desaceleração econômica global que pode afetar, de forma mais intensa, economias
emergentes, como a do Brasil.
Diferentemente
do cenário da crise de 2008, o governo petista de então, em seu segundo mandato, adotou medidas
contracíclicas. Hoje, no quarto mandato, perdulário por excelência, promete um ‘pacote
de bondades’ de incentivo ao consumo, que deve custar, pelo menos, R$ 100
bilhões, catapultando a dívida pública tupiniquim para 79% do PIB, bem acima do
patamar de 17 anos atrás, de 61% do PIB.
A
intensidade do choque de realidade vindo da terra de Tio Sam por aqui vai
depender, em grande medida, acentuam os especialistas, do grau dos desequilíbrios
macroeconômicos do país, quando isso ocorrer. Isso significa ‘correr contra o
tempo’, a fim de colocar as ‘contas em ordem, evitando a ‘tempestade’ formada
por uma dívida astronômica, juros nas alturas e inflação ‘não domada’. Ao admitir
que a situação brasileira é ‘tristemente previsível’, a executiva do Fundo concorda
com a metáfora automotiva, pois a gestão petista sequer ‘usa cinto de segurança,
ante o risco iminente’.
Obviamente
comedido ao avaliar a crise que se avizinha, o cofundador e CEO da OpenAI, Sam
Altman reconheceu, em entrevista concedida durante a conferência DevDay, que
o segmento de IA estaria ‘meio inflado’ no momento, ressalvando
que, com a OpenAI, “algo de verdade está acontecendo”.
A ‘febre’
de demanda por IA é de tal proporção que as big techs têm ‘lançado mão’ de
arranjos financeiros complexos, cada vez mais corriqueiros, a exemplo de
acordos de ‘financiamento circular’, pelo qual uma empresa chega a emprestar
dinheiro para que os próprios clientes continuem adquirindo seus produtos. “Sim,
os empréstimos de investimento são sem precedentes, assim como é sem
precedentes as empresas crescerem em receita rápido”, confessou Altman, na semana
passada.
Testemunha
de quatro outras ‘bolhas’, o pioneiro em IA, Jerry Kaplan – em debate no Museu
de História do Computador, no Vale do Silício – deu o tom de realidade à crise
em gestação. Tomando por base o fato de que, atualmente, o volume de dinheiro
em jogo é muito maior do que a 'bolha das empresas ponto.com', do final dos anos
90, Kaplan sentencia: “Quando [a bolha] estourar, vai ser muito ruim, e não
apenas para quem trabalha com IA”...e “vai arrastar o restante da economia
junto”.
Fazendo
coro a Kaplan, outros analistas não escondem o ceticismo, afirmando que a ‘disparada’
do valor de mercado das big techs resultam do que chamaram de ‘engenharia
financeira’, isto é, seu valor de mercado estaria ‘artificialmente inflado’.

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